
Foi a terceira vez na minha vida que eu assisti “Pixote” e como todas as anteriores também impactante, olhando agora percebo que em fases muito distintas da minha vida, na primeira eu era uma criança, na TV nos velhos festivais de cinema acho eu, já não tenho certeza, quando se exibia na emissora mais popular filmes brasileiros e outros mais em horários assistíveis, isso nos anos 80, e eu criança de tudo já ligado nos filmes, depois nos 90 adolescente em vídeo, me lembro desse dia, na época passava uma novela com Marília Pêra, e quem assistia junto ficou em choque com sua personagem que era o oposto total da sua personagem ingênua da novela, agora novamente revejo esse clássico absurdo de tão bom, tão duro e cruelmente realista e o pior depois de tanto tempo atemporal ou simplesmente ainda atual (?), “Pixote“ me lembra “The Wall” do Pink Floyd, última obra-prima da banda e que eu escutei muito, mas só por um breve tempo da minha juventude, um tempo que eu tava bem em baixa comigo mesmo, muito deprê, e foi a trilha sonora perfeita daquele período, mas logo saiu de cena, passou e eu nunca mais consegui ouvir esse disco novamente, só no rádio quando rola uma música ou outra aleatoriamente, “Pixote“ tem isso, evoca isso em mim, um filme pra se assistir, conhecer, ver a sua perfeição mas mergulhar nela, não…
O filme: narra a história de vários garotos jovens todos adolescentes ou nem isso, numa típica casa de detenção, com todos os abusos, e horrores que se pratica nesse tipo de lugar, cometidos por quem devia cuidar deles, de quem deveria estar ali pra fazer com que eles pudessem ter uma chance ao menos que seja de conseguirem um retorno pra uma vida dita normal com sua família, na sociedade, mas não é o que sucede, o terror físico e psicológico está sempre a espreita, sempre a disposição de uma punição, sempre aguardando a oportunidade de se livrar em nome do Estado de mais alguém que não se quer cuidar, tratar, ensinar… Numa noite de revolta muitos fogem e seguem pra mais uma caminhada de incertezas, só que dessa vez nas ruas, levando consigo sonhos desfeitos e verdades impuras, levando consigo a expressão do ódio com o qual foram cultivados durante tanto tempo numa rotina de terror e desamor sem fim… o filme tem interpretações de gigantes dos atores que fazem os internos, eu tô pra ver um filme brasileiro que tenha conseguido extrair esse grau de interpretação de um elenco tão jovem que fica pau a pau com o elenco de feras com os quais eles contracenam, o filme foi indicado ao prêmio de melhor filme estrangeiro e por questões técnicas não pode concorrer ao Oscar também de melhor filme estrangeiro, mas correu o mundo e mostrou uma realidade tenebrosa de um aspecto social nosso, Brazil, que até hoje não se tem por resolvido… Indispensável… tá no YouTube….



Eu convidei e o ator Jorge Julião que faz a inesquecível Lilica aceitou responder as minhas indagações sobre o filme, conforme o combinado segue as perguntas e respostas tal qual foram feitas e respondidas via Instagram:
Paulo Al-Funs – Boa tarde Jorge, vamos começar pelo início, qual foi seu primeiro contato com arte, um filme, um livro, uma música que tu ouviu que te conectou e vc falou ‘vou ser artista’?
Jorge Julião – Oi Paulo. Vamos lá: Sou santista e transferi a Faculdade de Psicologia para cá e fiz teste para entrar em um espetáculo chamado “O último carro” de João das Neves. Passei e comecei a estudar artes cênicas.
PA – Ser um artista da atuação/interpretação era o que vc desejava desde o início ou estava voltado a outra forma de expressão artística?
JJ – Quando descobri o teatro, resolvi me aperfeiçoar e estudar outras áreas que envolviam artes cênicas. Dramaturgia (gosto muito) direção e interpretação…
PA – Como vc foi contatado pra fazer a Lilica, te viram e tu foi convidado, ou você correu atrás de algum teste quando soube que ia rolar o filme?
JJ – Os testes aconteceram em São Paulo e duraram dois meses com muita improvisação.
PA – Tem alguma lembrança específica/especial quando vc estava nessa fase de escolha de ator pra fazer essa personagem?
JJ – Quando conheci o personagem, fiquei encantado e lutei muito para chegar nos finalistas até ganhar o papel.
PA – Como foi o trabalho de preparação de vocês? No filme fica claro que vocês foram muito além do que poderia se esperar de tão jovens atores.
JJ – Tivemos um preparo teatral muito bom com Fátima Toledo e passamos dias juntos estudando os perfis de cada um dos meninos.
PA – Qual foi sua primeira impressão do diretor Hector Babenco e como era ser dirigido por ele? Era muito exigente, dava liberdade pra vocês improvisarem?
JJ – Foi muito bom trabalhar com o Hector. Duro, exigente, mas sabia exatamente o que queria. Mas aberto a mudanças de alguns momentos do filme.
PA – Tudo em “Pixote” é brutal e a realidade sempre presente, é um filme cru e sem fantasia, como era o clima durante as filmagens?
JJ – Hector e equipe entendiam as dificuldades do elenco mirim e tínhamos uma atenção especial. Até porque Fernando (Pixote) não sabia ler e na hora de decorar as cenas ficávamos juntos. Mesmo as cenas mais duras, conversávamos bastante para o clima não pesar tanto.
PA – Lilica é a bixa maconheira daquele centro de detenção, mas tem o respeito dos outros garotos, além de um parceiro para o amor, como era o convívio com os outros atores?
JJ – Antes de começar as gravações, já tínhamos um clima de convívio tranquilo. Já nos conhecíamos. Inclusive Marília Pêra veio mais cedo para São Paulo, ensaiar com o grupo principal.
PA – Sua cena de desespero pela perda do seu parceiro é uma das mais intensas do cinema (não só do “Pixote”) de que forma aquilo te tocou no seu âmbito pessoal?
JJ – A morte do garotão foi filmada de madrugada, muitas vezes. Fui ao máximo do sentimento de perder alguém muito próximo. A música entrou depois, mas combinou com o clima proposto.
PA – É difícil falar entre tantas cenas de uma em especial, mas no final quando vc pergunta para o Pixote “o que uma bixa pode esperar da vida?” E ele responde “nada né Lilica” aquilo é muito forte e representa toda uma questão de vidas LGBTs como foi fazer, vc tinha consciência que tocava no inconsciente de milhares de vidas?
JJ – Até hoje comentam dessa cena. Hoje o mundo está mudando, as pessoas começam a ficar mais tolerantes. Acho que hoje qualquer pessoa pode sonhar mais. Acreditar mais. Não é fácil, mas o principal é não perder a fé no que se acredita. A música que a Lilica ia cantar era Debaixo dos caracóis de seus cabelos do Roberto Carlos e conversei muito com Hector e consegui trocar por Força estranha do Caetano.
PA – A comunidade LGBTs é cotidianamente perseguida mesmo que veladamente, insultada (mesmo que só entre quatro paredes) e morta no nosso país, como vc observa isso?
JJ – A comunidade LGBTs começa a se mobilizar mais, mostrando caras novas que acreditam em uma mudança, mesmo com um governo tão radical e intransigente. Encontrei vários meninos que me contaram que Lilica foi libertadora. Fico emocionado até hoje. E a resposta ao Pixote hoje será: uma bicha pode tudo!!!!!
PA – Uma das coisas que achei muito legal é que a Lilica simplesmente vai embora e não morre como muitos personagens, o que da uma certa esperança, vc acha que ela estaria viva hoje, teria chegado aos anos 2000?
JJ – Lilica vai embora, justamente para crescer. E o crescendo dela fica justamente na imaginação de cada um. Lilica era da vida e pra vida!
PA – Todas as cenas que vocês jovens atores fizeram vocês não ficam minimamente aquém das feras que vocês contracenaram, em algum momento vc ficou intimidado com algum deles?
JJ – Adorei contracenar com todos. Foram gentis e pacientes. Marília foi uma escola emocional para mim e contracenar com Jardel Filho me emocionou. Sempre gostei muito dele.
PA – Como foi a estréia do “Pixote” vocês assistiram juntos, o filme rodou e foi premiado mundo afora, vocês chegaram a viajar pra algum país pra representá-lo?
JJ – O filme foi especial a cada um. Ninguém previa o sucesso mundial que foi. Outro dia lendo uma entrevista do Spike Lee, ele diz que é o filme predileto dele. Não é o máximo? Viagem para várias cidades para apresentar o filme. Assistimos juntos a estréia e participamos de vários debates.
PA – Como a vida transcorreu pra você depois do filme, se dedicou a um novo projeto, filme, teatro, a fama do filme te ajudou, atrapalhou?
JJ – Depois do filme fui estudar mais. Criei vários grupos de teatro e hoje me dedico a aulas de interpretação para jovens e pessoas da Maturidade. Faço parte de um grupo que estuda Teatro chamado Rádio Ilusão, onde escrevo e dirijo peças, participo como professor de um Projeto Teatro Cidadão. E trabalho com grupos de pessoas com mais de 60 anos onde juntos aprendemos a melhorar a nossa vida. (Memória, movimentação e ritmos).
PA – O Fernando morreu como morrem muitos jovens pretos no país, vocês mantinham contato na época?
JJ – Fernando foi assassinado como tantos jovens de periferia são. Uma realidade brutal, dura, que ainda vai permanecer atual com essa diferença social absurda dentro do País.
PA – Que tipo de filme vc curte, tem algum outro filme brazuca que vc considera tão atemporal como “Pixote”?
JJ – Sou cinemaníaco. Assisto tudo. Vejo desde terror trash, até melosos. Aprendo sempre com cinema. Escola da vida… Tenho predileção por dois filmes do Cacá Diegues “Bye Bye Brasil” e “Chuvas de Verão”. Me tocam até hoje.
PA – Curiosidade pessoal, vc curte astrologia? Sabe seu signo, ascendente, lua?
JJ – Sou taurino, com ascendente em Sagitário, e horóscopo chinês, sou galo.






Deixo aqui meus agradecimentos ao Jorge pela imensa gentileza e espero que outros cinéfilos e fãs do filme e do ator possam ler e também curtir…
Paulo Al-Funs, cinéfilo








