Os Sonhadores

cartaz de “Os Sonhadores”, 2003

É um filme que pode se dizer que é “jovem” já que foi realizado no início dos anos 2000. O tempo voa. Na minha cabeça era um filme feito “a poucos anos” e por isso estranhei o esclarecimento na abertura avisando que estava restaurado. Quando foi lançado tive uma leve curiosidade (por conta da época em que se desenrolava – os anos 60) em conhecer. Mas caiu de ser agora.

O filme: O jovem Michael Pitt (nem lembrava desse ator) está morando em Paris para estudar (por conta da faculdade “escapou” da guerra do Vietnã promovida por seu país) e como um bom cinéfilo (amante de filmes) está sempre em todas as salas de exibição como muitos outros jovens do seu entorno. Numa manifestação contra a demissão do gigante Henri Langlois (persona real amante de cinema fundador da Cinemateca Francesa altamente influente) conhece os irmãos gêmeos Theo e Isabelle (interpretados pelos ator Louis Garrel e pela atriz Eva Green). Rola aquela química que liga as pessoas que se atraem logo no início e eles começam a andar juntos. Não demora muito e o jovem americano que mora num hotel é convidado a passar um tempo no apartamento dos irmãos (enquanto os pais deles estão em viajem). Ao conhecê-lo a personagem de Eva Green diz “você é tão limpinho” numa referência a sua aparência em comparação com seu irmão. E ele realmente é – mas não só externamente. Ele é um “bom rapaz” que ao adentrar o mundo dos irmãos percebe que há um abismo entre sua realidade e a dos gêmeos (psicologicamente siameses). Os irmãos cinéfilos o conduzem abertamente para um jogo sexual. É. É um filme do Bertolucci o autor do chato “Último Tango em Paris” de 72. O casal de irmãos não transam – mas não deixa de ser uma relação que borda o incesto. Sendo um filme do Bertolucci o nu é mostrado nu e cru. Eva Green tem um despojamento total. Michael Pitt também. Já Garrel pouco ou nada se vê do seu peru (a não ser uma profusão de pelos púbis). Quem já assistiu ao “Último…” deve lembrar que o roteiro tem como carro-chefe o sexo. Aqui segue igual – mas não se compara os dois filmes. Eu me lembro a primeira vez que eu assisti a “Último Tango…” no longínquo ano de ’96 e não gostei nada. Há alguns anos senti vontade de rever – como sempre que eu assisto um filme muito badalado e não curto, sempre me permito dar uma nova oportunidade pra obra (vai que eu não curti daquela vez por um problema meu e não do filme). Resultado: nada mudou. Continua sendo um filme chato. Ao contrário deste “Os Sonhadores“. Que também não tem profundidade alguma. Quase nenhuma história. E muita nudez. Curioso que enquanto escrevia (eu sempre escrevo primeiro nas folhas do meu caderno pra depois digitar e quiçá publicar) me lembrei de duas coisas. O genitor (pai) dos gêmeos é poeta. E a família mora num apartamento que com certeza poucas pessoas no mundo já moraram ou frequentam. É imenso. Quase uma casa antiga nas alturas. Mesmo não aparentando luxo. É luxo. Ainda mais em Paris. A recordação que surgiu na mente: Alain Ronay, o amigo franco-americano de Jim Morrison da época de faculdade de cinema deste na UCLA da Califórnia e que morou com ele em Paris em 71 num apartamento emprestado pra Jim e sua parceira (que o deixou pra ficar morando com seu amante em outra parte da cidade), conta que quando a autoridade especialista em sinistros chegou ao apartamento onde Jim foi encontrado morto na banheira ele questionou a Alain (que o recebeu) qual era o nome do morto e sua ocupação. Ronay e sua amiga a cineasta Agnès Varda (que já tinham feito uma varredura no local se livrando de todo tipo de substância ilícita e já tinham decidido dar o mínimo de informação), se limitou a responder o nome Douglas James (nome invertido) e a ocupação/profissão poeta, ao que o agente criminal respondeu cético “um poeta? É a primeira vez que vejo um que vivia no luxo”. “De onde vinha o dinheiro?” “De rendas” devolveu Alain. Talvez, o pai do nosso personagem aqui também tenha muitas rendas, porque se tem uma classe que sempre viveu ferrada financeiramente em todas as épocas e séculos é a minha. Os únicos poetas endinheirados que eu já ouvi falar são os que já nasceram ricos como Shelley e Byron. A 2° lembrança que minha mente foi buscar foi que quem estava trabalhando no roteiro de “Último Tango…” na mesma época do fatídico encontro de Jim com o outro lado de lá era a… Agnès Varda. Não lembro se foi o próprio Alain Ronay que disse ou outro alguém que ela levou alguma coisa do impacto desse acontecimento para o filme que estava escrevendo. Nesse sentido me lembro de uma das cenas (talvez a única) que eu gostei do “Tango” que é quando o personagem do Marlon Brando se aproxima do corpo da sua esposa suicida disposto na cama e após xingá-la enormemente cai aos prantos numa das melhores cenas que eu já assisti na tela. A estrela Shelley Winters disse que ele merecia um Oscar só por essa cena. Assino embaixo. Morrison não ficou numa cama, seu corpo ficou 03 dias mergulhado numa banheira mantido a gelo (estava muito quente na época) que o dono de uma funerária trazia todos os dias para evitar que ele ficasse decomposto antes de ser liberado pelo agente pra ser enterrado. Bertolucci parece ter se lembrado na época de tudo isso também já que colocou o som do The Doors na trilha desse “Sonhadores“. PS: o apartamento (emprestado) onde Morrison estava acampado nos 03/04 meses que ficou em Paris e onde foi encontrado morto era de um produtor hollywoodiano. Obviamente, um local de luxo.

Uma coisa a se refletir sobre os “Sonhadores“: Quem está na ponta da lança de manifestações ou movimentos sociais são sempre jovens ou pessoas de classes abonadas financeiramente? Os gêmeos “rebeldes” aqui não pertencem ao proletariado – ao contrário, são “burgueses” e “lutando” provavelmente contra os valores da sua própria classe. Eu já ouvi falar que os hippies (que inquestionavelmente ajudaram a melhorar o mundo) também eram sempre filhos de uma boa situação financeira – e que os jovens menos favorecidos em grana ou estavam morrendo no Vietnã ou trabalhando pra ajudar a sustentar a casa. É uma pergunta que eu acredito que a resposta seja atualmente negativa.

Vale assistir? Sim, a cópia restaurada brilha – brilha até demais (assisti outro dia a “O Rei da Noite” e que está também numa restauração 4K o que transforma a tela num colírio excessivamente exuberante). Mas não busque profundidade, e deixe seus princípios pseudo-moralistas no armário.

Isabelle/Eva Green

Michael Pitt

Theo/Louis Garrel

Matthew e Theo

Isabelle

Pitt – Green – Garrel

Os Sonhadores

ps: optei em não publicar (mas queria) as fotos com o nu frontal do trio.

Louis Garrel, francês – 14/06/1983 🌞 ♊ 🌚 ♌ ASC ♊

Eva Green, francesa – 05/07/1980 🌞 ♋ 🌚 ♈ ASC ♍

Michael Pitt, americano – 10/04/1981 🌞♈ 🌚 ♋

Paulo Al-Funs – autor, cinéfilo, paranista.

Passagens

cartaz de “Passagens”

O tesão do cinema é que ele não para. Multifacetado, está sempre se reinventando. E sempre oferecendo oportunidades de se conhecer novos trabalhos ou antigos trabalhos que você não conhecia. E é muito bom que nem tudo que a gente assista seja ótimo. O cinema também tem lugar pra filmes que são bons passatempos bem dirigidos, bem interpretados mesmo dentro de histórias batidas como essa. Passagens filme recente lançado em 2023 é desses filmes que você acompanha, curte enquanto rola, e quando você pensa que “aquele algo a mais” vai acontecer, ele termina. E meio que surpreso você olha pra tela e pergunta “é isso mesmo?”

A história é batida porque toda história de relacionamentos são batidas né. Quem não viveu aquela situação, vai vivenciar aquela outra, ou a outra, ou a outra, mas em geral romances, amores, relacionamentos, estão na vida de todos e de todo mundo. A redundância é proposital. Alguém já falou que histórias de amor são clichês? Provavelmente. Essa é mais uma. Num filme o diferencial vai estar ligado diretamente ao que o seu diretor quis nos proporcionar. Sua visão, o seu olhar.

Vai ter spoilers

O filme: Cineasta finaliza seu filme se sentindo meio inseguro ao que vai ser do seu filhote agora que ele foi lançado. Numa relação rotineira com seu parceiro, se interessa por uma mulher na balada, fica com ela e acaba curtindo. Sem muito dilema existencial (ou culpa), se muda pra casa da jovem (levando quase tudo que é seu), deixando o parceiro no vácuo. Bom dizer que a moça sabe que o romance da vez acabou de sair da casa que ele compartilhava com um parceiro gay. Não há enganos. Nada a ser descoberto nesse sentido. Em tempo mínimo de convivência (ainda estão na fase da experiência), ela fica grávida. E chama os pais pra conhecerem o genro e pai do seu neto. Não tem como ficar ao lado dela nessa hora. Não tem como ficar ao lado de uma pessoa adulta que já desabafou com a mãe e que no primeiro encontro com o parceiro da filha, vai questioná-lo sobre seu recém finalizado relacionamento com outro homem e quer garantias de que sua filha e seu neto que ainda não nasceu terão todo apoio que uma mãe e uma criança precisam para enfrentar a vida. O personagem reage. E você assistindo também. E a pergunta que fica é: na hora que tu estava fodendo você chamou seus pais pra gozarem contigo? Se a resposta é não, então porque você pessoa madura e independente agora é quase permissiva em aceitar essa invasão de relação, de intimidade?

O pegador. Não, ele não é pegador. Aqui entra o clichê sobre ter falado que você já viu essa história em outros filmes. Ele se empolga com ela, transa, gosta (fazia anos que não tinha sexo com mulher, e curtiu esse revival), e num ato de ‘vou viver uma nova história’ se joga pra casa dela. O problema é: (o clichê) ele não esquece o parceiro, continua o procurando, e interferindo no direito dele seguir a vida em um novo relacionamento com outro cara. Tu já viu isso em vários outros filmes, a diferença é que quase sempre num triângulo mulher-homem-mulher.

Depois de spoilear…

O que fica? Vale assistir? Vale conhecer sim. Pelo seu bom elenco: Ben Whishaw (que faz o parceiro a deriva), está quase irreconhecível, é um ator versátil (o único que eu conhecia), o cineasta em dupla crise matrimonial é feito pelo ator Franz Rogowski, e a atriz Àdele Exarchopoulos forma o trio de desamor que pra mim não é um triângulo já que conta com a participação do novo romance do personagem do Ben, o ator Erwan Kepoa Falé (que também tem seus momentos de perrengue por ter se envolvido com um cara que não finalizou ‘direito’ seu relacionamento anterior). Boa direção (Ira Sachs) e uma fotografia que agrada aos olhos (Josée Deshaies). No geral, um bom filme.

Ponto baixo – final anticlímax.

Ponto alto – o melhor anal (sex) que eu já vi na tela.

Ben Whishaw, inglês 14/10/1980🌞♎ 🌚♐

Adéle Exarchopoulos, francesa 22/11/1993 🌞♏ 🌚♓ ASC♍

Franz Rogowski, alemão 02/02/1986 🌞♒ 🌚♏

Erwan Kepoa Falé, francês, 🌞 ???

Paulo Al-Funs, cinéfilo, presente

Pixote, a Lei do Mais Fraco, 1980

cartaz de “Pixote, a Lei do Mais Fraco”

Foi a terceira vez na minha vida que eu assisti “Pixote” e como todas as anteriores também impactante, olhando agora percebo que em fases muito distintas da minha vida, na primeira eu era uma criança, na TV nos velhos festivais de cinema acho eu, já não tenho certeza, quando se exibia na emissora mais popular filmes brasileiros e outros mais em horários assistíveis, isso nos anos 80, e eu criança de tudo já ligado nos filmes, depois nos 90 adolescente em vídeo, me lembro desse dia, na época passava uma novela com Marília Pêra, e quem assistia junto ficou em choque com sua personagem que era o oposto total da sua personagem ingênua da novela, agora novamente revejo esse clássico absurdo de tão bom, tão duro e cruelmente realista e o pior depois de tanto tempo atemporal ou simplesmente ainda atual (?), “Pixote“ me lembra “The Wall” do Pink Floyd, última obra-prima da banda e que eu escutei muito, mas só por um breve tempo da minha juventude, um tempo que eu tava bem em baixa comigo mesmo, muito deprê, e foi a trilha sonora perfeita daquele período, mas logo saiu de cena, passou e eu nunca mais consegui ouvir esse disco novamente, só no rádio quando rola uma música ou outra aleatoriamente, “Pixote“ tem isso, evoca isso em mim, um filme pra se assistir, conhecer, ver a sua perfeição mas mergulhar nela, não…

O filme: narra a história de vários garotos jovens todos adolescentes ou nem isso, numa típica casa de detenção, com todos os abusos, e horrores que se pratica nesse tipo de lugar, cometidos por quem devia cuidar deles, de quem deveria estar ali pra fazer com que eles pudessem ter uma chance ao menos que seja de conseguirem um retorno pra uma vida dita normal com sua família, na sociedade, mas não é o que sucede, o terror físico e psicológico está sempre a espreita, sempre a disposição de uma punição, sempre aguardando a oportunidade de se livrar em nome do Estado de mais alguém que não se quer cuidar, tratar, ensinar… Numa noite de revolta muitos fogem e seguem pra mais uma caminhada de incertezas, só que dessa vez nas ruas, levando consigo sonhos desfeitos e verdades impuras, levando consigo a expressão do ódio com o qual foram cultivados durante tanto tempo numa rotina de terror e desamor sem fim… o filme tem interpretações de gigantes dos atores que fazem os internos, eu tô pra ver um filme brasileiro que tenha conseguido extrair esse grau de interpretação de um elenco tão jovem que fica pau a pau com o elenco de feras com os quais eles contracenam, o filme foi indicado ao prêmio de melhor filme estrangeiro e por questões técnicas não pode concorrer ao Oscar também de melhor filme estrangeiro, mas correu o mundo e mostrou uma realidade tenebrosa de um aspecto social nosso, Brazil, que até hoje não se tem por resolvido… Indispensável… tá no YouTube….

Gilberto Moura
Edílson Lino
Jorge Julião

Eu convidei e o ator Jorge Julião que faz a inesquecível Lilica aceitou responder as minhas indagações sobre o filme, conforme o combinado segue as perguntas e respostas tal qual foram feitas e respondidas via Instagram:

Paulo Al-Funs – Boa tarde Jorge, vamos começar pelo início, qual foi seu primeiro contato com arte, um filme, um livro, uma música que tu ouviu que te conectou e vc falou ‘vou ser artista’?

Jorge Julião – Oi Paulo. Vamos lá: Sou santista e transferi a Faculdade de Psicologia para cá e fiz teste para entrar em um espetáculo chamado “O último carro” de João das Neves. Passei e comecei a estudar artes cênicas.

PA – Ser um artista da atuação/interpretação era o que vc desejava desde o início ou estava voltado a outra forma de expressão artística?

JJ – Quando descobri o teatro, resolvi me aperfeiçoar e estudar outras áreas que envolviam artes cênicas. Dramaturgia (gosto muito) direção e interpretação…

PA – Como vc foi contatado pra fazer a Lilica, te viram e tu foi convidado, ou você correu atrás de algum teste quando soube que ia rolar o filme?

JJ – Os testes aconteceram em São Paulo e duraram dois meses com muita improvisação.

PA – Tem alguma lembrança específica/especial quando vc estava nessa fase de escolha de ator pra fazer essa personagem?

JJ – Quando conheci o personagem, fiquei encantado e lutei muito para chegar nos finalistas até ganhar o papel.

PA – Como foi o trabalho de preparação de vocês? No filme fica claro que vocês foram muito além do que poderia se esperar de tão jovens atores.

JJ – Tivemos um preparo teatral muito bom com Fátima Toledo e passamos dias juntos estudando os perfis de cada um dos meninos.

PA – Qual foi sua primeira impressão do diretor Hector Babenco e como era ser dirigido por ele? Era muito exigente, dava liberdade pra vocês improvisarem?

JJ – Foi muito bom trabalhar com o Hector. Duro, exigente, mas sabia exatamente o que queria. Mas aberto a mudanças de alguns momentos do filme.

PA – Tudo em “Pixote” é brutal e a realidade sempre presente, é um filme cru e sem fantasia, como era o clima durante as filmagens?

JJ – Hector e equipe entendiam as dificuldades do elenco mirim e tínhamos uma atenção especial. Até porque Fernando (Pixote) não sabia ler e na hora de decorar as cenas ficávamos juntos. Mesmo as cenas mais duras, conversávamos bastante para o clima não pesar tanto.

PA – Lilica é a bixa maconheira daquele centro de detenção, mas tem o respeito dos outros garotos, além de um parceiro para o amor, como era o convívio com os outros atores?

JJ – Antes de começar as gravações, já tínhamos um clima de convívio tranquilo. Já nos conhecíamos. Inclusive Marília Pêra veio mais cedo para São Paulo, ensaiar com o grupo principal.

PA – Sua cena de desespero pela perda do seu parceiro é uma das mais intensas do cinema (não só do “Pixote”) de que forma aquilo te tocou no seu âmbito pessoal?

JJ – A morte do garotão foi filmada de madrugada, muitas vezes. Fui ao máximo do sentimento de perder alguém muito próximo. A música entrou depois, mas combinou com o clima proposto.

PA – É difícil falar entre tantas cenas de uma em especial, mas no final quando vc pergunta para o Pixote “o que uma bixa pode esperar da vida?” E ele responde “nada né Lilica” aquilo é muito forte e representa toda uma questão de vidas LGBTs como foi fazer, vc tinha consciência que tocava no inconsciente de milhares de vidas?

JJ – Até hoje comentam dessa cena. Hoje o mundo está mudando, as pessoas começam a ficar mais tolerantes. Acho que hoje qualquer pessoa pode sonhar mais. Acreditar mais. Não é fácil, mas o principal é não perder a fé no que se acredita. A música que a Lilica ia cantar era Debaixo dos caracóis de seus cabelos do Roberto Carlos e conversei muito com Hector e consegui trocar por Força estranha do Caetano.

PA – A comunidade LGBTs é cotidianamente perseguida mesmo que veladamente, insultada (mesmo que só entre quatro paredes) e morta no nosso país, como vc observa isso?

JJ – A comunidade LGBTs começa a se mobilizar mais, mostrando caras novas que acreditam em uma mudança, mesmo com um governo tão radical e intransigente. Encontrei vários meninos que me contaram que Lilica foi libertadora. Fico emocionado até hoje. E a resposta ao Pixote hoje será: uma bicha pode tudo!!!!!

PA – Uma das coisas que achei muito legal é que a Lilica simplesmente vai embora e não morre como muitos personagens, o que da uma certa esperança, vc acha que ela estaria viva hoje, teria chegado aos anos 2000?

JJ – Lilica vai embora, justamente para crescer. E o crescendo dela fica justamente na imaginação de cada um. Lilica era da vida e pra vida!

PA – Todas as cenas que vocês jovens atores fizeram vocês não ficam minimamente aquém das feras que vocês contracenaram, em algum momento vc ficou intimidado com algum deles?

JJ – Adorei contracenar com todos. Foram gentis e pacientes. Marília foi uma escola emocional para mim e contracenar com Jardel Filho me emocionou. Sempre gostei muito dele.

PA – Como foi a estréia do “Pixote” vocês assistiram juntos, o filme rodou e foi premiado mundo afora, vocês chegaram a viajar pra algum país pra representá-lo?

JJ – O filme foi especial a cada um. Ninguém previa o sucesso mundial que foi. Outro dia lendo uma entrevista do Spike Lee, ele diz que é o filme predileto dele. Não é o máximo? Viagem para várias cidades para apresentar o filme. Assistimos juntos a estréia e participamos de vários debates.

PA – Como a vida transcorreu pra você depois do filme, se dedicou a um novo projeto, filme, teatro, a fama do filme te ajudou, atrapalhou?

JJ – Depois do filme fui estudar mais. Criei vários grupos de teatro e hoje me dedico a aulas de interpretação para jovens e pessoas da Maturidade. Faço parte de um grupo que estuda Teatro chamado Rádio Ilusão, onde escrevo e dirijo peças, participo como professor de um Projeto Teatro Cidadão. E trabalho com grupos de pessoas com mais de 60 anos onde juntos aprendemos a melhorar a nossa vida. (Memória, movimentação e ritmos).

PA – O Fernando morreu como morrem muitos jovens pretos no país, vocês mantinham contato na época?

JJ – Fernando foi assassinado como tantos jovens de periferia são. Uma realidade brutal, dura, que ainda vai permanecer atual com essa diferença social absurda dentro do País.

PA – Que tipo de filme vc curte, tem algum outro filme brazuca que vc considera tão atemporal como “Pixote”?

JJ – Sou cinemaníaco. Assisto tudo. Vejo desde terror trash, até melosos. Aprendo sempre com cinema. Escola da vida… Tenho predileção por dois filmes do Cacá Diegues “Bye Bye Brasil” e “Chuvas de Verão”. Me tocam até hoje.

PA – Curiosidade pessoal, vc curte astrologia? Sabe seu signo, ascendente, lua?

JJ – Sou taurino, com ascendente em Sagitário, e horóscopo chinês, sou galo.

Jorge Julião e Rubens de Falco
Marília Pêra
Jardel Filho
Elke Maravilha
Tony Tornado
Fernando Ramos

Deixo aqui meus agradecimentos ao Jorge pela imensa gentileza e espero que outros cinéfilos e fãs do filme e do ator possam ler e também curtir…

Paulo Al-Funs, cinéfilo

King Cobra (2016)

cartaz de “King Cobra”

A primeira surpresa foi ver Christian Slater (um crush dos 90), depois de muito tempo… e, é claro, a constatação que o tempo passa pra todos… Christian está bem, com bem menos cabelo… uma infâmia a pessoa ter que ficar com o cabelo ralo depois de penetrar o caminho de outras idades… Eu nem sei como cheguei a esse filme… tenho a impressão que ele se jogou na tela e falou, “me consome, please”... e foi o que eu fiz…

O filme: jovem (bem jovem mesmo) quer se tornar um astro pornô, vai atrás do seu sonho… e encontra um produtor / diretor disposto a realizar seu desejo… mas, no meio do caminho tinha uma pedra… ou melhor tinha outro(s) perus… reduzindo ao máximo é isso… mas, não só… Spoiler? Sim, e não… O personagem do ator Garrett Clayton é um jovem gay que quer unir o útil ao agradável (fazer filmes pornos, trepar com vários, gozar, ser pago pra isso e de quebra ficar famoso – uma estrela)… se une ao diretor feito por Slater e assim começa uma bem sucedida carreira no pornô gay… um detalhe que talvez não caberia e não tava no contrato: O diretor além de se envolver com seu contratado, também acaba se apegando (o que vai dar ruim!)… Do outro lado dessa cena, vai rolando outro caso de cores parecidas… o diretor feito pelo James Franco (outro crush, mas de agora) tem um relacionamento com o ator de seus filmes (também porno gay) o que torna a relação de ambos bem mais intensa, com a diferença que no primeiro casal, o sexo é só permitido no trabalho, isto é, na hora de gravar, já com o segundo casal, o personagem do Franco, explora sexualmente seu parceiro (Keegan Allen), levando-o a prática de programas extra filmagens (o que também não é saudável pra relação deles)…e em algum momento o destino dos 04 ou das 02 duplas vai se encontrar…

Garrett Clayton

O mais interessante no filme, é mostrar como não existe gênero quando o assunto é sentimentos, emoções e relacionamento… aqui fica claro, que não é necessário um casal ser hétero, pra vivenciar todos os piores dramas que uma relação a dois pode ter… ciúmes exagerados, falta de confiança, controle excessivo, controle financeiro, medo da perda e por aí vai… é um filme sério (ao contrário do que possa parecer), uma produção básica e que funciona bem… merece ser conhecido…

Keegan Allen

Paulo Al-Funs, cinéfilo

Matou a Família e Foi ao Cinema (70)

cartaz de “Matou a Família e…”

Sui generis

A começar pelo título, que é um dos mais originais do cinema (todos os cinemas).

É tudo muito simples, aparentemente difícil (eufemismo pra sem pé, nem cabeça) no princípio, mas, não é… acompanha-se… Aparentemente, são pessoas (personagens) vivendo no limite, e que decidem transgredir… É um bom cinema – jamais tosco – já que se sente que a sensibilidade é um luxo do diretor na manifestação de sua essência ao mostrar um mundo em seu ardor… Complexo? Não… desde que você siga o fluxo…

Renata Sorrah muito jovem, faz uma persona cinematográfica, digna de sua grande carreira de atriz, sempre doando sua voz e corpo em altas interpretações de personagens únicas… Márcia Rodrigues, sua partner, é uma atriz muito bonita e de presença…

Renata Sorrah e Márcia Rodrigues

Há mais de uma estória, numa delas, um homem, sensível a teores alcoólicos, decide enviar sua família, após um drama caseiro, para viver em outro plano, mais etérico…

Me falta uma palavra pra falar do cineasta Júlio Bressane… vou chamar de essencial… Toda arte precisa de seus alternativos…

A cena da tortura, é pra deixar inesquecível, o que nunca se deve esquecer… o sinistro que aconteceu nesse país na época da realização (antes e depois) do filme, 1969…

Paulo Al-Funs

Noite Vazia

cartaz de “Noite Vazia” (64)

Clássico do Cinema… É um filme que merece estar entre os filmes da Criterion (restaurado no mais próximo da perfeição para nosso presente e toda posteridade)… Spoilers: antes de mais nada, não assista se tu não tiver numa onda (nem que seja meia) existencial, quem busca aventura ou rir, melhor ficar longe… O Filme: A narrativa se passa numa única noite, paulistana, onde dois homens se juntam a duas mulheres pra uma noite de namoro e prazer, mas, o tédio pinta junto, mudando tudo, sem os deixar se entreter… ah!!!… os atores… um quarteto que funciona muito bem, com química, e que vivenciam seus personagens no mesmo nível e mesma sintonia! Odete Lara e Norma Bengell eram atrizes muito famosas e na época da realização do filme, grandes sex symbols… cada uma com sua beleza própria, a ariana (de ♈ mesmo) Odete Lara tem uma cabeleira leonina, é agressiva, hipnótica… Norma tem um olhar marcante num ar sofredor de vítima / mártir, a expressividade pisciana (de ♓ mesmo)… Também mostrou que tinha bom gosto, e algo a mais… se casou com o italiano Gabriele Tinti, um dos atores do filme, bonito como Delon… Palmas pra ela 😉!!! Palmas também para o realizador, cineasta, Walter Hugo Khouri, que fez um filme de primeira, dos melhores do nosso cinema, o brasileiro… Indispensável… quem se interessar, bora assistir…

Mário Benvenutti, Odete Lara, Norma Bengell, Gabriele Tinti

🌿 sou cinéfilo, não crítico, então escrevo baseado no que vejo, e nas emoções / sentimentos que me foram despertos…

Paulo Al-Funs

 

Toda Nudez Será Castigada

cartaz de “Toda Nudez Será Castigada” (72)

É um clássico. A começar pelo título, Toda Nudez Será Castigada, é um filme atípico, atípico porque é um grande filme do cinema brazuca, e não só do nosso cinema, mas, do cinema! “Toda…” foi premiado em Berlim, num dos maiores festivais… muito bem encenado, compacto (nada se tira, nada se põe), impactou, veio pra impactar mesmooo… baseado, palavra boa… baseado numa peça do icônico Nelson Rodrigues, o nosso autor teatral maior, gênio do “a vida como ela é…”, sem máscaras, sem hipocrisia, mostra um recorte da já na época (há controvérsias se foi lançado em 1972 ou 73) decadente moral da tradicional família “de bem”… tragédia pra grego nenhum apontar defeito… a história pode ser brutal (especialmente pra pseudo-moralistas)… Herculano, viúvo, se acabando no álcool de desgosto, é convencido pelo irmão a conhecer uma nova mulher, Geni… A personagem interpretada pela icônica estrela Darlene Glória, que faz da sua Geni uma das figuras mais humanas do cinema… totalmente carnal, totalmente coração, numa mistura, capaz de deixar qualquer Herculano (Paulo Porto, perfeito) da vida, loucamente cativado… Geni, tem calor humano, é amorosa, carente como ela só, mas, disposta a ser feliz, sem culpa ou vergonha… me lembrou, na essência, a também magnífica personagem, feita pela grande atriz / estrela icônica Anna Magnani no filme do Pasolini “Mamma Roma“… Eu nunca fui de teatro (feito para a elite), então, nunca assisti nenhuma montagem da peça, não sei se está toda no filme, mas, é muito raro um caso onde um filme, saído de uma peça, não pareça teatro filmado, aqui não existe isso, tá tudo perfeito, a trilha (tango) do Piazzolla, as tias velhas feitas por duas atrizes tão brasileiras, mas, nascidas lá fora, Henriqueta Brieba (espanhola), Elza Gomes (portuguesa), Paulo César Pereio (o eterno sacana mor), faz o irmão, o filho feito pelo Paulo Sacks (seu enlace com o boliviano, é rir pra não chorar), a bicha, assim mesmo, a bicha feita pelo grande Sérgio Mamberti (não reconheci de primeira o ator), perfeita, e aqui, faço um comentário pessoal, tenho a impressão, que toda gay no passado, só tinha espaço pra ser amigo, ou próximo, de mulheres como a Geni… mas, acho que é só uma impressão minha… fotografia do Lauro Escorel fodastica… a cópia que vi, tá aparentemente, restaurada, isto é, ótima… Quem nunca viu, esse clássico, ou já ouviu falar, mas nunca assistiu, e tem curiosidade, bora… com certeza é a obra-prima do cineasta Arnaldo Jabor… vale, e muito, conhecer…

Paulo Al-Funs 

🌿 não sou crítico de cinema, mas, amo filmes o suficiente para falar / escrever sobre…