Os mortos
caminham,
sem parar
Numa festa
alegre,
onde as visitas
os veem encontrar
Caminham
ao lado
dos entes queridos
Caminham
cheios de saudade
Que não tem
Tempo, e nem lugar
Na hora
da partida,
os visitantes
sem saber
levam seus mortos
a passear,
para rever e encontrar
seu antigo lar...
Paulo Al-Funs
Categoria: Literatura
Pequena Homenagem
Eu gostaria de fazer uma pequena homenagem a um homem que nada sei, e o pouco que sei me levou a escrever este post. Ênio Silveira. Gente que realiza trabalho de bastidor sempre me interessou. Sou fã de realizadores de cinema (diretores e produtores), de música (fiquei fascinado pelo André Midani quando li sua autobiografia). Esses dias atrás fiz um post sobre o romance “As Cidades da Noite” que havia lido, e duas perguntas ficaram na minha mente. Como esse livro estava aparentemente fora de catálogo (?) e como uma história tão punk havia sido publicada no Brasil da ditadura de 64 (?). Pesquisando no dr. Google, me veio em parte as respostas. A Editora Civilização Brasileira (que hoje pertence ao grupo Record) que publicou o livro, foi fundada em 1929, e até os anos 50 continha muito pouco material no seu catálogo que não fosse didático. Até a chegada nessa época do jovem (escorpiano do ano de 1925) Ênio Silveira. Um amante de livros. Entusiasta, logo aumentou significativamente o catálogo da editora trazendo títulos modernos com temas diferenciados e publicando autores brasileiros do qual era um incentivador. Acreditava realmente no poder transformador da literatura na vida das pessoas. Nos primeiros anos da década de 60 a “Civilização” já era uma potência literária. E seus problemas por conta do seu editor e suas publicações começaram a florescer. Ênio era militante e a “Civilização” se tornou o QG das mentes que não aceitavam o período trevoso que o país tinha embarcado. Nenhuma editora ou editor se opôs tão frontalmente ao regime ditatorial. Nenhuma e nenhum foram tão brutalmente perseguidos. Seus livros passaram a ser confiscados, seus autores perseguidos, e Ênio preso várias vezes com direito a ter sua própria casa invadida. Nunca abaixou a cabeça ou se curvou. Lutando contra todas as adversidades permaneceu fiel a si mesmo, inovando na divulgação dos livros (anúncio em outdoor), como na publicação da moderna literatura brasileira e gringa (não à toa “As Cidades da Noite” foi publicado em 1964 um ano após seu lançamento lá fora). Um democrata, jamais deixou de lutar pelo seu (nosso) país. E algo que eu gostei de saber, ele não era desses que acreditava que livros foram feitos apenas para serem apreciados por uma pequena casta.
Em geral, as pessoas evitam ler, seja porque realmente não gostam, seja porque não se interessam em desenvolver o hábito da leitura, seja por pura preguiça mental, não importa o motivo, até aí se respeita, já que gosto é gosto, e cada um tem o seu. Mas essa onda de reprimir, querer decidir o que as pessoas podem ler, retirar livros das escolas, das bibliotecas, é o fim da picada (em qualquer lugar do mundo). Pautas identitárias progressistas e pautas conservadoras reacionárias não tem esse direito e nem essa liberdade a ser exercida em cima das pessoas. É o fim da picada conservadores querer ditar o que é moralmente aceitável para uma pessoa ler. É o fim da picada progressistas quererem boicotar um autor porque ele é (assumidamente) contra suas pautas. Nesse sentido tanto uns como outros (progressistas e conservadores) estão agindo como duas faces tirânicas da mesma moeda.

“Quem não lê, mal ouve, mal fala, mal vê“. Slogan da Civilização Brasileira.
Paulo Al-Funs – autor
As Cidades da Noite

“As Cidades da Noite“, 1964
Fazia anos, e anos que eu queria ler esse livro. Eu não tenho uma lista de livros pra ler no radar. Um ou outro muito pontual eu tenho vontade, mas, nada na base do “tenho que”. “As Cidades da Noite” do autor John Rechy desde que eu tomei conhecimento da sua existência num tempo muito distante eu desejei conhecer. Literatura de qualidade com narrativas de personagens de orientação gay são uma raridade no século 20. Busquei muito nos meus anos verdes, encontrei 02 que me marcaram muito “Giovanni” (56) do James Baldwin e “A Cidade e o Pilar” (48) do Gore Vidal. Ambos os livros fundamentais na minha existência. Em “O Nome da Rosa” do Umberto Eco o foco não é uma história afetiva/sexual gay, ali o sexo rolou porque num ambiente (mosteiro) que muitas pessoas do mesmo sexo compartilham naturalmente isso acaba acontecendo. Sinceramente, não curti “Narciso e Goldmund” do Hermann Hesse também passado num ambiente de confinamento. Em “Ciranda de Pedra” (54) clássico da nossa literatura da autora brazuca que mais me afetou Lygia Fagundes Telles, Letícia a personagem lésbica era mais uma entre as personagens interessantes do livro. O romance que foi transformado em “novela das 6” em duas épocas, até onde eu sei, nunca foi apresentado com a coragem que a sua autora mostrou a décadas passadas quando o publicou. Dificilmente a Globo faria isso, ainda mais no horário que essas novelas foram exibidas. Conrado era impotente (não conseguia trepar), sua irmã Letícia lésbica (começa feminina e depois se masculiniza), Otávia era solta e livre, mandou a virgindade às favas (sem nunca casar), e Bruna começa “santa” pra depois do casamento começar a adulterar. Virgínia que através do seu olhar transcorre a cenas, era a filhota rejeitada por ser “ilegítima”, começa perdida, sem saber o que se passa e depois como talvez diria Nelson Rodrigues vai compreendendo “a vida como ela é”. Espero que o cinema um dia faça jus ao romance, já que a TV… Todos esses livros são dos meus anos verdes, e talvez, se os relesse hoje se mostrassem (provavelmente) diferente pra mim… Na casa dos 20 fui apresentado primeiramente ao filme (amei demais) “Plata Quemada” (quem nunca viu corre, é um dos melhores dos anos 2000, na minha opinião) e depois fui atrás da fonte, o romance do mesmo nome (em português ficou “Dinheiro Queimado” – deviam ter permanecido com o título original) do autor Ricardo Piglia. É tão foda quanto o filme. Pra quem gosta de cinema e literatura de qualidade vai aí 02 indicações. Sugiro primeiro o filme, depois o livro. Agora, já uma pessoa antiquíssima aqui na Terra, finalmente me chega esse sonho de leitor juvenil não concretizado “As Cidades da Noite” (63) que por um tempo achei que nem existia traduzido na nossa língua. Spoiler: A edição que vou guardar comprada no maior site de sebo online da web (precisa dizer o nome?), é de 1964! O português escrito é o da época e as gírias também. Precisava ter um dicionário Ruy Castro ao lado pra me dizer o que é um cara “cheio de bossa”. Garçom é garção (na boa, fica mais legal na forma antiga). Na novela “Dancin’ Days” que estou na reta final, há gírias que até hoje permanecem e eu nem sabia que eram tão antigas tipo “sacou, estupidamente gelada” e a muito citada “transa” (tipo “ele não transou isso legal”). Transa era uma gíria da minha adolescência sempre relacionada a sexo, e não usada da forma natural como na novela ou melhor, nessa época (anos 70). Fico curioso pra saber quando ela adquiriu esse status sexual. Eu já a conheci e sempre usei nesse sentido. Não dá pra usar atualmente da forma como eles falam na novela porque algumas frases iriam ganhar outros sentido. Uma outra gíria (?) onipresente no livro é “fanchona” e ela não parece ter o sentido burocrático que os dicionários online que eu consultei anotam… Agora, agora o livro…
Spoiler Spoiler Spoiler
Jovem começa narrando sua vida, da infância onde ficou traumatizado com a perda da sua dog, a relação amorosa com a mãe, a relação complicada com o pai, a ida para o exército, tudo isso sob o sol escaldante do Texas e seu desejo de voar (conhecer o mundo, conhecer o que existe do outro lado de lá)… Solitário vai atrás do seu destino, ou talvez do que acredita ser o seu caminho, e chega na cidade grande, a inigualável Nova York. Como nos versos da canção do Belchior “sem $, amigos importantes, vindo do interior”, inicia uma odisseia sexual pelo submundo gay, e através do que vai vivenciando vamos sendo apresentados a uma sociedade, a um recorte dela que pegou muita gente (na época) de surpresa (menos é claro quem já fazia parte dela). O universo LGBTs do princípio dos anos 60 foi atirado sem nenhum amortecedor na cara da sociedade (conservadora) americana da época de forma abundante e explícita. … seu autor enfiou tudo e mais um pouco sem gel, vaselina ou qualquer outro amaciante que aliviasse aquela penetração. Ele desnuda o americano médio. E põe um fim em qualquer ilusão que uma pessoa comum poderia ter sobre relações afetivas/sexuais se darem apenas no plano ortodoxo heterosexual. Seus personagens sui generis existem, existiam e estavam ali para provar que também se movimentavam embaixo da luz solar da Terra. Sádicos, masoquistas, recalcados, presos em armários, camuflados em casamentos fracassados, perigosos uns, maldosos outros, travestidos, sonhadores, odiados, com culpa ou sem culpa, performáticos, desesperados, aviltados, perseguidos, humanos em suas glórias, tragédias, dores e vivências estão todos lá, a começar por Nova York, seguindo por Los Angeles, San Francisco, Chicago e finalizando em New Orleans. É uma comunidade gigantesca, com seus bares próprios, seus hotéis, seus cinemas, suas ruas (sim, é aquela vida refletida na música e vida do poeta musical sempre à margem Lou Reed, nas vidas obscuras da Factory do Andy Warhol, nos versos da canção L. A. Woman (The Doors) cujo refrão ‘city of night’ é uma referência ao título original do livro), suas vidas e gostos próprios, suas tragédias pessoais, sua luta pela sobrevivência num mundo completamente hostil a elas/es. Nosso herói não quer romance, quer sexo, quer prazer… a erva, as bolinhas (anfetaminas), o álcool ajudam a dar o gás, mas, mais que isso é uma busca sem fim que os move, uma busca por seus sonhos, por ser feliz, se realizar (essa coisa do americano de “chegar lá”), uma classe de pessoas (todo ou quase todo universo de LGBTs está aqui representado) que não importa o drama, a tragédia, ou comédia não está disposta a parar. E não parou. O livro foi escrito antes dos acontecimentos de Stonewall (69) um marco do movimento e que mudou tudo. Não, a vida não é perfeita, mas, cada um a vive da forma como lhe é possível. E essas personagens a viveram da forma que conseguiram.
“As Cidades da Noite” tenho a impressão que não é mais impresso no Brasil (a despeito de ser um clássico mundial da literatura e um marco do seu gênero), a edição que eu comprei (1964) vou guardar pra mim. Eu cresci como leitor através de todos os livros que li de uma biblioteca municipal. Eu não tenho apego a livros provavelmente por isso. Livro é conhecimento e eu aprendi que conhecimento se passa adiante. Há mais de 20 anos eu não entro numa biblioteca pública, os livros que eu compro (do sebo virtual não citado acima), ficam um tempo comigo depois eu passo adiante. Os que permanecem é porque são realmente muito importante, como esse que demorei tanto tempo pra ler… Essa edição de páginas amareladas com tradução de Fernando Teles de Castro, desenho da capa de Eugênio Hirsch, é da Editora Civilização Brasileira, e espero sinceramente que alguma editora o relance um dia novamente no mercado. Merece.
ps: entre as folhas desse clássico estavam três bilhetes amarelados, dois com nomes e telefones cariocas (o sebo é do Rio) e um com esse recado que eu achei muito poético, compartilho aqui…

Paulo Al-Funs – autor
Machado

Foto de Machado de Assis recriada pelo movimento Machado de Assis Real
Aquele que é tido como nosso maior homem de letras, o gigante Machado de Assis, tem sua imagem reconstituída na forma tal qual ele realmente era… Um homem negro, com a cor e os traços marcantes característicos da sua origem… Houve por um tempo absurdo, que inclui os dias de agora, uma imagem do escritor numa pele embranquecida que não era a sua… Eis agora que o temos como de fato, era…
Agradecido!
Paulo Al-Funs
Dia do livro… Bora indicar…
Boa noite pra nós!
Hoje é o Dia Internacional do Livro
Gostaria de compartilhar ao menos alguns que por um motivo ou outro tiveram muita importância na minha mente, na minha formação de leitor, e por extensão na minha própria vida…
Trapo de Cristovão Tezza – sem comentários, é um dos mais fascinantes da nossa literatura, li muito novo também, me marcou demais…
Bala na Agulha do Marcelo Rubens Paiva – acredito eu que ainda é atualíssimo esse livro, principalmente nos dias de hoje… li quando foi lançado,nunca me esqueci, só posso dizer que marcou…
Ciranda de Pedra da Lygia Fagundes Telles – li e reli (um dos poucos) na minha adolescência e é da minha autora brasileira do coração…
As Meninas da Lygia Fagundes Telles – gostaria muito de assistir uma versão cinematográfica desse livro, espero que um dia role…
Verão no Aquário da Lygia Fagundes Telles – li na minha adolescência, junto com os outros 02 acima citados…
O Morro dos Ventos Uivantes da Emily Brontë – li, e reli ( um dos poucos que reli na vida) é fascinantemente sombrio…
Jane Eyre da Charlotte Brontë – é da minha pré adolescência, amei…
A Idade da Razão do Jean-Paul Sartre – dizem que tu tem que ter a idade certa pra ler essa obra-prima, então eu tava no momento ideal… transmutou minha mente…
O Vermelho e o Negro do Stendhal – ainda não consigo falar sobre, li numa momento crucial da minha vida…
O Filho do Trapeiro do Kirk Douglas – uma das mais francas e verdadeiras autobiografias que já li de um grande astro hollywoodiano, indispensável pra qualquer cinéfilo como eu…
Jinetes en la Tormenta do John Densmore – livro de memórias do baterista da minha banda do coração The Doors…
O Escaravelho do Diabo de Lucia Machado de Almeida – foi o primeiro livro que li na vida e me despertou o amor, apego, e gosto pela leitura e literatura… até hoje…
Paulo Al-Funs
