Dancin’ Days – a saga segue…

Os capítulos são divididos em blocos de 30 – então é nessa ordem que paro para escrever – os capítulos são curtos e nem sempre os cortes fazem sentido, no início eu achava que devia ter alguma enrolação com a edição, mas felizmente a uma página sobre a Globoplay na web que avisa que há partes que não puderam ser salvas por conta do mal estado das fitas originais, o que encurtou os capítulos – mas a edição é ótima e em nada atrapalha o segmento da história. Só que infelizmente vai haver passagens perdidas que nunca vamos conhecer. Julia Matos (Sônia Braga) voltou de viagem e se transformou numa personalidade atraente e fascinante da sociedade carioca. Às custas das ilusões que alimentou na cachola do muito querido Ubirajara (uma das muitas interpretações de primeira grandeza de Ary Fontoura), que acreditando que pode amar por dois, decide bancar seu sonho de ter Julia como esposa (no caso aqui só uma fantasia de namorada). Julia é uma anti-heroina nata. Seus defeitos saltam aos olhos. Assim como suas qualidades. É leal e amiga. Rancorosa e vingativa também. Dona de uma forte personalidade, nunca faz média e não deita pra ninguém. Ubirajara um pai de pet que é impossível não gostar. O que gera um certo ranço pela forma como ela o instrumentiza na sua escalada social cuja essência é de se vingar. Execrada pela filha Marisa (Glória Pires) aviltada pela irmã Yolanda (Joana Fomm), e incapaz de se ligar numa relação afetiva com Caca (Antônio Fagundes), é uma outra pessoa na casca. Interiormente continua a mesma que se mostrou desde o início. O tal do Caca… em algum momento vai dar um tapa no visual. A transformação ocorre quando finalmente corta o cordão umbilical com a mãe falecida que o conduziu a carreira de diplomata. Fagundes com 29 anos aparenta estar na casa dos 30. Incapaz de ter um relacionamento fofo com Julia (dois perturbados não se bicam) vai levando com a barriga seu noivado com Inês (Sura Berditchevsky) desde sempre uma personagem que eu curto (inteligente, esperta, autêntica, independente) mas que sendo tão segura de si, acaba não percebendo o que tá largado na própria cara. Confia no gato e não se liga que é do ser humano ter diversidade afetiva. No ponto que eu estou ela já tomou uma rasteira na sua auto confiança e o choque já deu pra ela dilatar as pupilas. Assertiva nas opiniões que envolvem a vida e relacionamento da mãe Áurea (Yara Amaral) não aproveita seus conhecimentos (teóricos) sobre relações afetivas em relação a si própria. Como se diz, é raro, mas acontece muito. Falando em Yara Amaral não me recordo de uma atriz de nossas telinhas e telonas tão italiana. Ela é muito intensa, e senhora de águas profundas. A sua Áurea é um mergulho em emoções muito intensas que ela vai trazendo a superfície ora aos trancos e barrancos ora com uma intensa delicadeza, suas cenas na boate que frequenta a tarde com um homem pra lá de casado mas que tal o peixe que não enxerga a água na qual vive, ela não vê, e a sugestão sexual dos toques das mãos de ambos é de uma sutilidade afrontosa. Yara Amaral é da mesma cepa das grandes italianas, se estivesse ainda entre nós, talvez tivesse atingido o topo de uma Anna Magnani, um ícone de uma dimensão tão grande que quando partiu provocou uma comoção nacional no seu país. Não, não morro de amores pela Áurea, mas a arte da sua intérprete é aula pra qualquer aspirante a sua profissão. Alberico do grande Mário Lago sofre de delírios de grandeza com picos de desejos inconfessos pelo fracasso. Tem idéias boas. Mas que mal geridas terminam em abortos que mal ultrapassam 22 semanas. Sua ideia em andamento de ter uma agência de frota de táxis lembra um pouco ou muito o modelo de Uber atual. Há de se dar crédito também a atriz Lourdes Mayer que faz sua esposa. Ela conseguiu um tom pra personagem que faz de dona Esther uma simpatia. É a personagem que mais contracena com a Marlene, personagem com muita personalidade feita pela querida Chica Xavier, que infelizmente tem poucas cenas, mas sendo uma atriz de presença tão marcante, jamais passa despercebida. Carminha (Pepita Rodríguez) é um sonho de tão gente fina que é. Amante de viúvo enrolado e chantageado para assim permanecer (Cláudio Corrêa e Castro) tem a vida que inúmeras outras pessoas muito gente boa tem: vive se fodendo por conta de querer ajudar/salvar os outros. Um pouco do individualismo da sua amiga Julia iria lhe fazer muito bem. Falando em Julia não tem como não falar de Marisa… Que figurinha egoísta. É um desfile de tudo que uma pessoa pode ter e ser de desagradável. No momento a inveja que está sentindo da sua amiga Vera Lucia (Lídia Brondi) a está dominando. Possuída pelo desejo de ser modelo fotográfico como Verinha que conseguiu por meios próprios (beleza/carisma) não consegue se conformar com o não que recebeu pra ter sua imagem cristalizada em foto de revista. É desagradável e tem a quem puxar. Ainda não aceita a mãe solo que a deixou aos cuidados da tia ao ser presa. Antes que eu me esqueça, adorei a cena em que Julia ao falar sobre a filha com Caca e ser perguntada sobre o pai da jovem, com uma sinceridade elogiável diz que não sabe quem é. Esse ‘não sabe’ no sentido de diversidade mesmo. Tinha 17 anos quando foi mãe. E quem já foi jovem sabe como as coisas podem ser bem intensas e bem vividas nessa fase. Contínuo fã da personagem Alzira da atriz Gracinda Freire e da própria atriz. É uma figura. Funcionária pública quer uma perna cabeluda (masculina) pra chamar de sua. Torço pra que encontre uma e tenha um final feliz. Hélio personagem de Reginaldo Faria vem mostrando que ser descolado depende muito de com quem se está. Depois de passar a novela flanando se envolveu com Verinha bem mais jovem que ele e o ciúme (nome da insegurança afetiva nas mulheres e sexual nos homens) vem lhe tirando a paz, a tranquilidade e o sono. Impossível não comentar: como Lauro Corona (Beto) era bonito. E trabalha bem! Gal Costa veio em festa na casa de Julia e cantou. Que loucura! A Gal era muito informal. Era outra persona. Lembrou algumas colegas da minha adolescência, no jeito e na aparência, todas maconheiras. Falando nisso, a Julia tem um spray no seu ap chamado anti-caretice, que pra bom entendor, não é necessário dois pingos nos iiss… Tem gente que curte incenso, da uma amenizada também no odor indescritível… Gal cantou, Mada (Neusa Borges) também, e mandou bem… Se o ap da Julia (quem é o ator gato que faz seu mordomo Roberto?) virou o point dos loucos, descolados (e endinheirados), o da Yolanda repousa na solidão. Após se separar do querido Horácio (José Lewgoy), tentar uma união com Hélio e ver seu sonho de unir o útil (dinheiro) ao encantador (amor) fracassar, começa a caçar homens endinheirados que a possam querer… Incrível, ela não desceu, ela despencou mesmo… Adorei o comentário da sua melhor amiga, a socialite Bibi (Mira Palheta) “Yolanda passou a não ser mais convidada pra jantares, porque se separou, e quando uma mulher se separa, as outras mulheres podem se sentir ameaçadas.” Resumiu bem (foi mais ou menos com essas palavras). Mas deixou claro porque divorciadas nessa época eram sempre coladas em adjetivos poucos simpáticos. Gosto muito da atriz Cleyde Blota (Emília) que voz que essa mulher tem. É puro mel. Muito agradável. Sua personagem muito bacana é sócia da Solange (Jacqueline Laurence) que se transformou na primeira atriz (e espero que a última) que morreu enquanto eu assisto a novela. Meio esquisito isso. Emília é a mãe do Raulzinho (Eduardo Tornaghi) que foi fazer a vida como médico num lugar distante e voltou (e foi de novo) muito gato. Vou finalizar comentando sobre a entrada do (Arthur) Mauro Mendonça. Que ator de presença! É um ator que frequenta nossas salas a décadas, sempre assim, mas que eu não conhecia nenhum trabalho dele na TV dessa época. Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976) é um clássico do cinema e do meu coração de cinéfilo. Ele é um dos maridos. Mas ver ele em cena depois de tanto tempo e nesse clássico das telinhas está sendo muito top. Concordo plenamente com o que o Arthur fala pra Julia sobre ela ficar com o Caca e serem felizes para sempre: “não vai dar certo”. Dancin’ Days não é perfeita, mas, é uma novela foda, que todo mundo que curte acompanhar uma boa história, bem contada, dirigida e interpretada com um elenco tão gigante, devia conhecer. Ou rever.

Paulo Al-Funs, autor

Dancin’ Days – a saga continua (capítulo 30 aos 90)

A clássica novela se inicia com uma anti-heroína (Julia Matos/Sônia Braga) que estava presa e buscava em seus sonhos de liberdade reencontrar a filha que não chegou a “criar” e estava a 11 anos sem ver. Marisa (Glória Pires) é a típica (?) adolescente da zona sul carioca que foi acolhida pela tia biológica (mãe) Yolanda Pratini (Joana Fomm) e seu esposo (José Lewgoy) no momento mais difícil da vida da sua genitora que ficamos sabendo no decorrer do caminho pensou em colocá-la para adoção num orfanato. E que mesmo antes de ser presa nunca foi uma mãe presente. Temos um drama real aqui e nada incomum. Júlia almeja se encontrar com Marisa e falar “mamãe chegou”, como se fosse tudo tão simples. Obviamente é impedida pela irmã (que faz até o momento o papel materno da sobrinha). A torcida pelo re-encontro é grande? É. Júlia tem um certo magnetismo que atrai (em raríssimos casos, repele), a quase todos os outros personagens da novela que tem contato com ela. Teimosa que nem uma besta, só escuta a si própria. O egoísmo exala. Bom, pessoas de personalidade forte tem o poder de fazer com que outras pessoas de personalidades não tão decididas orbitem a sua volta. De uma forma muito justa e digna vai buscando resgatar sua vida, com trabalhos que surgem aqui e ali. É uma personalidade sofrida. Que se auto estigmatiza porque sabe que a sociedade vai fazer o mesmo com ela se descobrirem seu passado (na prisão). Pra tentar se aproximar da filha, com a ajuda de Verinha (Lídia Brondi) cria uma mentira, um nome fictício e consegue virar uma “amiga mais velha” da colegial (Marisa). Vale mencionar que Verinha é uma personagem esperta e logo sacou que o interesse de Júlia por saber sobre a vida de Marisa estava bem além do normal. Mas Vera é “do bem”. Júlia logo seria apresentado a face tenebrosa de Áurea (Yara Amaral).

17. A inauguração da tão esperada boate acontece. E é um acontecimento mesmo. Os personagens (quase todos) vão desfilar por lá. Há presença de famosos como Nana Caymmi dando canja. Eu curto pra ver o visual, é muito legal essa parte, o que era moda na época. Cabelos, roupas, a forma de dançar, as músicas. A trilha que sendo bem generoso nas palavras não passava de medíocre, agora ganha corpo com várias músicas de disco da época. Músicas que a gente conhece e tocam até hoje nas rádios. É um retrato da elite da época também. “17” é a boate dos ricos e descolados setentistas da sociedade carioca.

A novela dá um salto. Em algum momento vamos ser surpreendidos por Marisa e Beto (Lauro Corona), prestes a se casar. Não se explica. Somos simplesmente apresentados aos fatos. Verinha apostou na liberdade por igual entre as parcerias, e se enganou. Perdeu Beto. Acreditando que poderia continuar saindo com outro rapaz (um gato da academia de Ubirajara/Ary Fontoura), descobriu a preço de um coração quebrado (o próprio), que o machismo existe e é pra todos. Beto não aceita na boa ver sua princesa se divertindo sem ele e com outro na boate 17 e causa rebuliço. Vera é consolada por Carminha (Pepita Rodríguez) que dá um show explicando como o machismo é parte dominante na vida de todos nós (capítulo 40). Beto procura consolo em Marisa que tinha um crush nele. E quando damos por nós, os sonhos de Yolanda em ver a filha casada estão encaminhados. Júlia revoltada vai querer fazer com que Marisa desista e aí acontece o que prometia ser “a cena” da novela: a revelação de que é sua mãe. Mas a Júlia, a Júlia é muito equivocada no que acredita em como deve ser a sua comunicação em relação as outras pessoas. Ainda mas de um assunto tão delicado e revelador como: Eu sou sua mãe, porra! Marisa se casa e vai morar com Beto na casa dos pais dele. Mesmo tendo o jovem casal um apartamento todo decorado a espera deles. É curiosa a relação. São dois adolescentes (ela 16 e ele 19) aos quais não deveria ter sido permitido essa loucura de assumir um compromisso tão sério sendo tão jovens. Não são jovens só em idades. Mental e emocionalmente também. Rachei o bico quando os pais de ambos juntos perguntam onde eles querem passar a lua de mel, e a resposta é: Disneylândia. Não há paixão, apenas parece ser a relação de dois adolescentes que se dão muito bem, são amigos e curtem se pegar. Aqui e depois disso a uma mudança pouco sutil na personalidade do Beto: ele fica meio bitolado. Quase caí pro ridículo a tentativa de forçá-lo parecer um parvo. Algo que ele desempenha até bem, mas foge do conceito original da interpretação que estávamos sendo apresentados pelo ator. A personagem de Marisa se oculta um pouco na trama. E Verinha sem conseguir esquecer Beto paira sobre o casal, como uma perna de tripé que ainda não se estabeleceu. O casamento de Marisa abre as portas que leva sua mãe de volta a cadeia. (Ahhhh Áurea, como chama aquele lugar que está repleto de pessoas cheias de boas intenções e que você “ser do bem” devia estar?…). E aqui acontece outro fato curioso. Júlia, a protagonista sai novamente de cena. Pra mim é muito atípico isso. Uma anti (?) heroína que nessa primeira fase se mostrou sempre de forma que foge ao óbvio (ter participação em tudo e em todos os capítulos). A personagem Júlia fica realmente oculta em quanto a novela e seus demais personagens vão se desenrolando com suas histórias. Há outras mudanças. De forma oblíqua (não fica realmente constatado), Carminha parece estar conhecendo mais intimamente Franklin o personagem do Cláudio Corrêa e Castro, que ao mesmo tempo vê seu casamento já falido com Celina (Beatriz Segall), se desmantelar. Por isso Carminha se despede de seu partner Jofre (Milton Moraes) amigavelmente (é uma dupla muito gente fina). Por mais Carminhas e Jofres no mundo. Terminar uma relação de forma sensível mas não-emocionada (descontrolada emocionalmente), não sei se revela maturidade, mas com certeza amor-próprio, sim. Cacá, a mala que Antônio Fagundes nos apresenta tão bem se auto-descobre no divã. É um personagem curioso. Acredito que uma raridade na vida tão atuante do seu intérprete. Se tivesse oportunidade gostaria de saber dele como foi fazer esse cara complicado tão perdido em si mesmo e como ele o observa (se observa) através do tempo. É incrível a sabedoria que algumas pessoas carregam. Aqui me refiro ao autor Gilberto Braga. Cacá seria pela sua marcante característica de indecisão alguém que nasceu com o signo de ♎ forte no mapa. E aqui entra mais sabedoria (?) do autor (não acredito em coincidências). Cacá pela idade do seu personagem está vivendo o que em Astrologia chamamos de “o retorno de Saturno” um período crucial na vida de todas as pessoas que nos encontra pouco antes de entrarmos nos 30 (anos). E ele com sua crise típica dessa fase da vida vivência isso na novela. E a cereja do bolo pra melhorar é que o personagem ganha a vida pela elítica carreira de diplomata, profissão essa relacionada (astrologicamente) ao signo de ♎ (libra), que tem a habilidade de usar a comunicação pra se relacionar formando alianças (sem de fato se comprometer seja com A, B ou C). Firme e forte segue sua obstinação por Júlia, a mulher que nem o nome sabe, que em tudo a desconhece, e que conheceu durante uma tragédia (atropelou um doguinho e ainda por cima ia fugir sem prestar socorro, no que foi impedido pela nossa anti-heroína). Cacá se apaixonou no que parecia ser só tesão despertado por um beijo (lembrando que Júlia estava na seca a 11 anos. Ao menos na seca de homem). Incapaz de lhe esquecer encontra amparo na figura da sua amiga e confidente, a sempre lúcida Inês (Sura Berditchevsky), que tal como a prima Verinha, está sempre a testar os limites do machismo via relação com seu futuro ex (Eduardo Tornaghi). Cacá e Inês não são um casal apaixonante e nem apaixonados, mas, resolvem se assumir como parceiros para o projeto de um futuro relacionamento estável. Pra felicidade dos papais e mamães de ambos. Celina e Áurea querem ver seus rebentos encaminhados. E isso passa por uma aliança nos dedos. Pra piorar a tragédia bate a porta da casa de Inês. E de Cacá também. O que acaba unindo o que poderia ter outro destino. Num acidente de carro guiado por Franklin morrem Celina e Aníbal (Ivan Cândido, marido de Áurea). Ambos morreram porque não era lei no Brasil da época usar cinto de segurança nos carros. Ainda bem que as coisas nesse sentido evoluíram. A cena é didática. Tudo aquilo que não se deve fazer pra evitar uma tragédia. Celina nunca bebeu (além de champanhe), e se embriaga com whisky. Franklin nervoso e alterado no volante (pessoas com a cabeça quente não deveriam dirigir) dando carona a Áurea e Aníbal. Quando Franklin perde o controle do carro, Áurea sem cinto chega a ser jogada pra fora do carro. A cena do velório e posterior enterro é uma das mais verdadeiras que eu já vi. Foram pelo menos uns dois capítulos. E conseguiram captar toda a depressão que envolve esse tipo de situação. Eu não frequento nem velório e cemitérios. Conto nos dedos das mãos às vezes que fui, então me vejo observando atônito aquele desfilar bem real de um lugar (cemitério) que me causa tanta estranheza. É uma cena longa, longaaaaa. Você acompanha por minutos todo o cortejo. Lauro Corona e Cláudio Corrêa e Castro são a imagem da tristeza irreversível. Outra curiosidade é que a amante (uma das) do Aníbal foi no velório. Ninguém a conhecia. Mas sem dizer palavra, ficou lá, firme e forte em sua dor. Louvável. Quantos e quantas não aparecem pra se despedir numa hora dessas. Vivenciam sua dor, a dor da perda a distância. A partida do personagem também tira de cena o autor de duas pérolas que me divertiram muito. Pego em flagrante por sua mulher Áurea na saída do cinema (aqueles de rua), com uma outra amante e após ser colocado no freezer em casa pela esposa traída (no cinema ela fez cena), solta 02 frases que pra mim já entraram pros anais da cara de pau do sistema novelístico. “Eu tenho cara de marido que traí?” pergunta, a outra é “eu te perdôo pelo escândalo”. Rachei o bico. Celina antes de partir (coitada, viveu a vida toda sóbria, foi morrer embriagada), também deixa lições pra futura nora Inês “nunca pare de estudar”, “não abra mão da sua vida pelo seu marido”, “não fique como eu cuidando da família e depois que os filhos crescem, assistindo sozinha televisão na sala”. Celina antes de morrer fez amizade com Neide que era sua antiga funcionária, e que promete se vingar por Celina do mal que acredita que Franklin fez a amiga morta. Neide é um caso a parte. Ela é vilã. É interpretada por Regina Viana (atriz que eu não conhecia) com honras. É uma personagem onde a maldade é expressada especialmente no rosto e na sua postura. Difícil isso. Não é o que ela diz. Ou faz. Imagina uma atriz que usa os recursos que seu rosto dispõe pra mostrar o interior vilão da sua personagem. A forma dela olhar, as expressões. É incrível. Tem atores/atrizes que vestem o personagem como se ele tivesse sido feito de forma exata pra eles. Não podia deixar de esquecer. Alberico (Mário Lago) consegue mas uma vez se mostrar um empreendedor que tem por natureza fracassar nos seus empreendimentos. Dessa vez a vítima é sua escola de cooperagem, onde da aula Everaldo (Renato Pedrosa), uma figura que me diverte. Faz uma dupla com sua empregadora (Yolanda) gostosa de se ver. Ela por sua vez se separa do marido Horácio. Fiquei triste. Ele é muito gente fina. Não o amava mais. E o pior, revela pra ele que queria ter se separado a muito mais tempo, e só não o fez porque queria casar a filha antes. Foi dura com ele. E Júlia retorna da penitenciária com sede de vingança. E Ubirajara vai ser o seu instrumento para realizar suas vontades. Nosso voyeur se apaixonou profundamente e profundamente vai cego atrás da sua paixão, movida a ódio no momento. E é aqui que vemos que Júlia e Yolanda são faces da mesma moeda. Yolanda pede o divórcio depois que alcançou seu objetivo (casar a filha), e deixa ferido Horácio. O dinheiro é usado na manutenção do status quo via união Beto e Marisa. Júlia aceita a proposta de casamento (na real um contrato nu e cru) de Ubirajara pra conseguir atingir um novo status social via $ e conseguir competir com Yolanda. Ambas usam seus parceiros afetivos (ou que deveriam ser). Yolanda agora se relaciona com Hélio (Reginaldo Faria), o descolado e parece não ter idéia exata do preço a pagar pra bancar essa opção. Júlia agora acompanhada de duas fiéis amigas, Solange (Jaqueline Laurence) e a querida Mada (Neusa Borges) vai matando Cacá na unha, após chegar como estrela da sua viagem a Europa (o mundo capota né). E pela primeira vez nós a vemos como protagonista da novela das 8h. Sua entrada na agora recém inaugurada (ex 17), Dancin’ Days é um assombro. Sônia Braga abala geral. Já não falo da personagem, falo da atriz, porque quem da vida a Júlia e protagoniza aquelas cenas de dança na boate é a atriz Sônia Braga. Para e parou tudo. Seja solo, ou dançando com Paulette (Dzi Croquettes) ela destrói tudo.

Júlia (Sônia Braga) num visual ultra top com suas amigas Solange (Jacqueline Laurence e Neusa Borges) e Mada!

Paulo Al-Funs, autor

Dancin’ Days

Sempre tive maior vontade de conhecer DancinDaysDas novelas antigas com certeza é a que mais me chamava atenção. Sempre vi uma mística muito grande nela, tipo aquele tipo de obra de arte que capta um momento, um tempo e por isso mesmo se torna absolutamente impossível e desnecessário uma regravação porque a magia de uma época não tem como retornar. A uns anos atrás assisti “Pai Herói” no Viva (a única que assisti no canal). Assisti com prazer porque também tinha maior vontade de conhecer um clássico da icônica Janete Clair. Gostei e embora não tivesse absolutamente ninguém com quem comentar, foi bom também nesse sentido, já que não recebi nenhum spoiler – e por isso tive um choque horroroso quando no último capítulo vi o André Cajarana personagem do Tony Ramos, ficar com a chatérrima Carina (personagem da Elizabeth Savala) em detrimento da espetacular Ana Preta imortalizada pela Glória Menezes. Demorei pra chegar no clássico do Gilberto Braga, mas tudo tem seu tempo. E cheguei na hora certa, já que no que pude pesquisar as primeiras reprises do app novelístico estavam causando perturbações nos expectadores por conta da transposição do material antigo para as telas que usamos agora. E nada melhor que começar sendo apresentado a uma novela tão especial.

Leio que as novelas estão em crise. Sim, não teria como não estar. Tudo mudou e ninguém é mais fiel de um único canal ou de uma única mídia. Eu assisto novela pelo que me recordo desde a infância da minha infância. Sou capaz de lembrar todas as que eu assisti e gostei, que não gostei tanto e aquelas que simplesmente depois dos primeiros capítulos já vi que não era pra mim. Das 03 novelas inéditas que a Globo exibia, ao menos uma assistia. Isso foi até princípios dos 90, porque já na adolescência você começa a ter vida própria e daí num dá mais pra ficar com a cara na tela o tempo todo. E acompanhar novela exige tempo. Tempo e concentração (dedicação). E tempo é muito valioso, e quanto mais velho você vai ficando mais seletivo ainda você vai ficando com relação a que gastar. Livro toma tempo, filmes, séries, música. Se não haver discriminação na escolha fica impossível. Tal como a Glória, não posso opinar sobre o que é exibido atualmente. O que posso falar eu já disse: sou contra refilmagens de obras-primas cinematográficas e contra regravação de novela clássica. Eu só assisti “Pantanal” versão anos 2000 porque na época não senti interesse nenhum em acompanhar o enorme sucesso que foi a “Pantanal” da rede Manchete. Essa não assisti, mas acompanhei “Dona Beija. E gostei. Nunca assisti a nenhuma das mexicanas do $$. E a única que assisti na emissora de poder gospel, eu tenho como uma das melhores que eu já vi. Foi um prazer acompanhar “Escrava Mãe“, pra mim uma das melhores novelas já exibidas na TV. Se o mundo caminha pra frente, não é revival que vai trazer de volta grandes ibopes. Outra questão que eu enquanto telespectador posso comentar é: toda fórmula por melhor que seja, acaba. Pergunta pra qualquer roqueiro, e vai ver se ele não te confirma. A fórmula do Pink Floyd secou (cansou) no fim dos 70′, a do Led Zeppelin idem na mesma época. A da Blitz, a do Engenheiros, até a da “Legião” já estava esgarçada, antes mesmo do Renato partir. O cinema na sua essência de eterna mutabilidade só sobreviveu até aqui porque de geração em geração foi se reinventando. Implacavelmente seus foderosos produtores não se intimidaram em colocar pra fora o astro ou a estrela que eles sabiam que o público já estava cansado. Porque cargas d’água a emissora mais foderosa do país acha que seu padrão de qualidade iria continuar a fascinar seu público eternamente? Saturação. A fórmula “padrão Globo de qualidade” foi usada a tanta exaustão que a magia se dissipou e parece que as cabeças pensantes que a regem não perceberam isso. Não é meramente (ou gravemente) um problema de texto. É caso urgente de se reinventar.

DancinDays – os primeiros 30 capítulos

Primeiramente: A “mocinha” é uma ex-presidiária que ficou 11 anos na cadeia por uma morte na qual estava envolvida. Surreal. Olha a ousadia. Sinceramente, não me recordo de nada assim!!! Sônia Braga, atriz de clássicos cinematográficos que eu curto (ela e seus filmes), e também da clássica “Gabriela” está de baranga. E aí que vemos a atriz. A personagem funciona. Sônia escondeu dentro de si toda sensualidade e beleza que a gente tá acostumado a associar a sua pessoa. A sua Júlia é pesada, carrancuda, dura (e é a heroína). Taciturna, quase ou nunca sorri. É o retrato de alguém que viveu no inferno e sabe que mesmo em Liberdade sua vida jamais será a mesma. O que eu achei estranho é que o inferno (cadeia) que ela cumpriu seus dias (está em condicional) tem cara de spa prisional. Se as cadeias eram assim em 1978, só pode-se dizer que mudaram muito, e pra pior, nas décadas posteriores. Ela (a Júlia) não ajuda muito que a gente curta ela. Não, por conta do seu passado, mas pela ausência de uma leveza que seria irreal se tivesse na sua personalidade. Júlia está se envolvendo com Cacá (Antônio Fagundes). É inacreditável. O herói (?) da novela é um dos maiores malas que eu já vi!!!!! Da sono escutar ele falar. Fagundes realmente é muito bom, pra fazer com tanta segurança um tipo tão insonso. Mas os dois tem química. Júlia mora no apartamento de Mário Lago com sua família. É impossível não gostar do ator já na época veterano. Eu fico impressionado e confirmo pra mim mesmo que quando um ator faz um personagem que tem haver com sua natureza, ele simplesmente arrasa. Mário Lago era sagitariano, e o Alberico, o seu personagem é ♐ puro. Como todo signo do Fogo, um sonhador, cheio de planos, com uma realidade paralela muito própria. O maluco reina absoluto nas suas cenas e viagens. Sua esposa Lourdes Mayer (não conhecia a atriz) parece que saiu de uma das suas composições mais famosas. “Amélia“. Mário Lago é o autor de um dos maiores clássicos da música brasileira. “Amélia não tinha nenhuma vaidade, Amélia que era mulher de verdade”. É dessa senhora uma das frases mais brutais sobre sua relação matrimonial “um casamento só dura como o meu quando a mulher acredita em tudo que ele fala”. Me pergunto se foi proposital por parte do autor da novela, Gilberto Braga. Essa é a parte não tão positiva. Como se passaram tantos anos e muitos não estão aqui, tem perguntas que talvez nunca poderão ser respondidas. É na casa do seu Alberico que está uma das maiores jóias da novela (sem contar as outras que circulam por lá). Eu tô muito surpreendido pela personagem “Carminha” interpretada com maestria pela atriz Pepita Rodríguez. É de longe uma das personagens mais carismáticas da TV. Que casamento feliz. A atriz (que eu só conhecia de nome), empresta um carisma que é todo seu, a uma personagem que não tem como você não amar. A casa é frequentada por Milton Moraes, ator carismático e cinematográfico (é o Cachorrão do clássico da foda “Bonitinha, mas Ordinária” baseado na obra do despudorado Nelson Rodrigues) que partiu cedo. Na casa trabalha Marlene, personagem da atriz Chica Xavier, sempre com muita presença, e refletindo uma cena muito comum nessa época trabalhadoras do lar pretas que moram na casa dos empregadores. Também se ouve outra afirmação muito duvidosa a respeito dela, dita pela esposa do Alberico “é quase da família”. Outros frequentadores do lugar são a irmã do Jofre (Milton Moraes), feita por uma atriz simpatia e bem vivaz (Gracinda Freire, que eu também não conhecia ou simplesmente não me lembro), Yara Amaral (atriz morta numa tragédia coletiva), a esposa casada e traída por um homem quase sempre ríspido no seu expressar (Ivan Cândido), e surpresa minha, sua filha feita pela atriz Sura Berditchevsky. Aqui é necessário comentar. É uma das personagens mais interessantes, inteligentes da novela. É uma mina do século XXI numa novela dos anos 70, tem ótimas frases e argumentos. Ela não é simplesmente a feminista (aquela chata cagando regras), é uma mina que sabe o que quer, o que não quer, é independente, verdadeira, com uma moral própria, e muito equilibrada (e não tô falando de ser zen). A Inês é um ser humano de primeira. Pra mim, vem sendo uma surpresa total. A atriz fisicamente também é muito diferente, ela não chega a ser realmente bonita, mas tem um tipo de beleza que foge do padrão. Também tem uma sensualidade muito própria que a personagem obviamente não explora, e que pertence a atriz. Decidida, não quer um marido pra se escorar (tá enrolada com Eduardo Tornaghi, ator realmente bonito e que trabalha bem). O personagem do Tornaghi é filho da Cleyde Blota. Que atriz bonita, e de presença. Ao lado das personagens da Gracinda Freire e Jacqueline Laurence, elas vivem o drama de mulheres que não sendo tão jovens, desejam um homem pra chamar de seu. Completamente atual. Porque muitas mulheres mesmo estando bem financeiramente e realizadas profissionalmente ainda sim (e é bem justo) querem alguém pra se esquentar na cama numa noite de inverno. Ou dormirem apenas de camisola ao lado de uma coruja excitada. Há fogo nelas, algo que se fala muito hoje em dia, já que não é porque as pessoas vão envelhecendo que ficam desprovidas de tesão. Personagens atuais e o cenário também. Outro ponto pro autor. Os queridos pra qualquer noveleiro dos anos 80, 90 e 2000 não podiam faltar. Cláudio Corrêa e Carro e Ary Fontoura. Duas lendas carismáticas da TV. O personagem do Ary pelo que vou percebendo se vivesse nos dias atuais seria um fiel do OnlyFans. É pai de pet. Como qualquer personagem do Ary, uma figura. O personagem do Cláudio C. C. é tradicional, endinheirado, casado com a querida Beatriz Segall (que dispensa comentários). Como a maioria aqui dos já citados, sempre arrasou no que fez. Vivem o drama dos casais casados a muito tempo onde o amor deixou de se expressar e sobra-se os ranços. A temática do casamento é muito forte na novela toda. Era a época em que foi aprovado o divórcio no Brasil (?), mas mesmo assim quem ousasse se separar (a mulher, no caso), era a errada. Finalizando há a dupla Joana Fomm e José Lewgoy (com um sempre jovem e descolado Reginaldo Faria que tá com cara de que faz tripé nesse casal). Qual noveleiro não curte? Até o momento não consegui ver a Yolanda Pratini como vilã. Por uma única razão. Diz o sábio ditado que “mãe é quem cria” (e eu acredito e dou valor a ditados populares), e ela tá cuidando da cria dela. É exuberante. Impossível não ter prazer em ver Joana Fom em cena, ao lado do carismático José Lewgoy então, é game over. Ainda não tá claro, mas acho que ela pega o Hélio (Reginaldo Faria). Eu deixei a ala jovem pro final. Lídia Brondi, Lauro Corona e Glória Pires. Eu cresci vendo todos esses atores em cena na TV. Todos esses atores citados. Mas muitos ali já eram cobras criadas quando fizeram a novela. Glória Pires, Lauro Corona e Lídia Brondi, não. Eu fui um dos inúmeros fãs da Lídia Brondi que ficou órfão da sua atuação quando ela deixou de representar. Lídia e o ator Paulo Castelli (o gato dos gatos dos gatos), foram duas das personalidades mais interessantes que as novelas dos anos 80 nos presentearam. Ambos abandonaram o barco deixando milhares de fãs desabrigados de sua atuação. Eu, apenas um deles. Ela está muito jovem, verde e não mostra ainda (mesmo que o princípio esteja ali, visível) a atriz de primeira que se transformaria. Diferente de Glória Pires. Marisa, sua personagem inicia com 15 anos, a Glória tinha menos, mas é inacreditável como ela enche a cena. É uma adolescente, e exibe uma segurança que poucas atrizes com sua idade fariam. Você não vê uma jovem intimidada por atuar com as feras que ela contracena. Com 14, 15 anos ela está no caminho pra se tornar a estrela que ela se transformou. É um caso raro. Em qualquer lugar do mundo. Lauro Corona, era deslumbrante, uma vida curta mas uma carreira com atuações em obras marcantes.

Há abertura do Hans Donner é uma das mais clássicas. Muita energia, a música das Frenéticas vibra alto, mais sinceramente, até o momento no tocante ao restante da trilha, está bem medíocre. Com excessão claro da atualíssima “Amanhã” do Guilherme Arantes.

Outro lance que eu que tenho cabelos crescidos não posso deixar de notar e comentar é: como os homens tinham cabelos!!! Que diferença! Foi os anos 80 que fudeu com as madeixas masculinas e padronizou (os cortes) até hoje???

Finalizando, curtindo demais. O Brasil é um país de noveleiro. Sejam antigas ou novas, a gente sempre encontra uma pra acompanhar!!!!

Paulo Al-Funs