Desde o início de novembro me movo no intuito de escrever sobre racismo, escrever sobre os heróis pretos e pretas do passado que mesmo a conta-gotas não param de se levantar na busca de encontrar um lugar, o lugar que deveras é seu, um espaço que foi lhes tirado na escrita, no tempo e na memória daqueles que escrevem a história tradicional (pessoas de pele branca)… já é final de novembro e eu me pego a pensar o que eu poderia falar, provavelmente eu aprendo mais escutando todos os pretos e pretas no compartilhamento de suas experiências do que falando das minhas que a rigor seria um martelar nas mesmas palavras que já expressei em outras páginas e perfis nessa mesma data… o que eu tenho a acrescentar? Continuo acreditando que a educação e o conhecimento é a base pra toda pessoa crescer na vida, o conhecer pode nos levar a lugares físicos ou mentais que só bem (em geral) pode nos fazer… 01 ano depois das aulas do Babu Santana eu que sempre me defini como negro passei a me definir como preto e gosto desse termo preto… eu confesso que não sou a pessoa mais esperançosa (como poderia ser sendo preto no país das chacinas onde o alvo é quem possui o brilho da cor?), mas também sei que nós não devemos e não podemos parar na busca do nosso lugar onde nenhum racista ou racismo pode nos tirar….
Apagamento…. muito se fala e hoje nós sabemos um pouco mais sobre como é, foi feito e continua ainda se desenrolando o apagamento de nós pessoas de pele escura… Apagamento em resumo é o ato de você ignorar o trabalho, os feitos e ações de pessoas pretas jogando para as sombras do esquecimento tudo que elas fizeram, creditando suas realizações a outras pessoas (de pele branca), cito 02 exemplos aqui no Brasil que acontecem em pleno século 21, uma das bandas mais marcantes do rock é a Legião Urbana dos anos 80 que teve um músico (baixista) preto, todo roqueiro tem fixação na formação original de uma banda, quando não tem na original, tem na mais produtiva, é por isso que nós (roqueiros) sempre sabemos quem participou de tal banda e em que disco tal músico tocou, eu fico impressionado como a figura do preto Renato Rocha é excluída quando se fala da “Legião“, como se a banda tivesse sido apenas um trio de músicos brancos… isso pra mim é apagamento, outro exemplo, um dos maiores grupos vocais do nosso país, os Golden Boys, (que pelo talento deveriam estar no Olimpo da música brasileira, mas não estão). Nos anos 60 num daqueles famosos festivais da época, os “Golden” foram procurados e convidados pra defender uma música (“Andança”), depois de aceitarem foi pedido a eles pra deixarem a jovem namorada (totalmente desconhecida) de um dos compositores a cantar junto, o que eles concordaram. A música foi um sucesso, a estreante Beth Carvalho depois disso seguiu uma carreira vitoriosa pelo seu próprio talento, e “Andança” ficou sendo passada adiante como um sucesso solo da Beth no festival , o que nunca foi. Desde o início foi Golden Boys & Beth Carvalho (eles eram muito famosos, ela não), isso pra mim também é apagamento…
Lá fora, Arthur Lee… Arthur foi o frontman da banda Love pioneira daquele novo som chamado psicodélico que emergiu nos anos 60, a banda Love é tida como a primeira banda de rock a unir músicos pretos e brancos tocando juntos, os Love eram referência em modismo (pelo visual), atitude e loucura pra todas as bandas americanas que estavam pipocando por Los Angeles na Califórnia trazidas pelo vento do movimento hippie, Arthur foi o primeiro frontman a impressionar pelo visual nada convencional, foi ele que amarrou um lenço na cabeça, talvez ou provavelmente por alguma influência ancestral dos seus ancestrais pretos e lançou o que veio a ser a moda do que hoje se chama bandana e que enfeita a cachola de muitos descolados por aí e que nem sabem que foi um preto que mandou um foda-se e ousou se pavonear (se arrumar) e se apresentar da forma como queria. Se fala em muitos ícones dos 60, mas Lee que nem sempre podia tocar nos clubes e cidades que queria por causa do “detalhe da cor” segue ainda nas sombras do esquecimento ou apagamento…
Enfim eu tô citando exemplos que pra mim são os mais gritantes mas são inúmeros os pretos e pretas do nosso país, anônimos, famosos que tem que lutar com as garras e presas de um tigre ou leão pra garantir o mínimo e estar sempre em alerta pra que não tomem seu lugar…

Renato Rocha o baixista da Legião

capa do álbum “Fumacê”

Arthur Lee psicodélico

Formação original do Love com um Arthur Lee bem sexy ao lado do guitarra gato Johnny Echols

Em 1973, Lee reformou os Love colocando só músicos preto

capa do álbum “Black Beauty“
Paulo Al-Funs – nesse momento só um pretinho pensante
