Filme tcheco lançado no início dos anos 70, do qual eu nunca em toda minha vida de cinéfilo havia lido nada a respeito e jamais pelo que me lembre tinha ouvido falar. Seu diretor uma novidade completa pra mim. Em preto/branco, wide, numa cópia boa. O filme: Nos idos de 1600, uma anciã é vista numa atitude considerada suspeita e ao ser questionada sobre seus atos é considerada suspeita de bruxaria, e para se ter certeza é chamado um famigerado inquisidor pra saber a “verdade”. Do momento que ele chega à cidade a vida dos seus moradores jamais será a mesma. Com a boa vontade que aqueles que adquirem um posto pra realizar um trabalho, o abominável está sedento pra mostrar serviço. A começar pela citada idosa, muita gente vai desfilar diante desse indivíduo e do seu conselho. Com realidade, e clareza vai se desnudando um recorte de um dos períodos mais sinistros da história da humanidade. Numa escalada sem fim a partir da idosa inúmeras pessoas vão sendo acusadas de praticarem bruxaria. O modus operandi é bem conhecido por todos aqueles que são amantes de atrocidades. A pessoa suspeita é levada até o inquisidor e seu conselho, após serem feitas perguntas e negadas a conversa que eles gostariam de ouvir é iniciado o processo de tortura, quando as pessoas não aguentavam mais as dores e sofrimentos causados (ossos quebrados, dedos esmagados, corpos esticados em rodas e o que mais fosse necessário), elas começavam a mentir a mentira que eles queriam que elas contassem envolvendo outras pessoas, o que indica que havia pessoas que estavam na mira da sua maldade. O negócio vai atingindo tal descalabro que só vai aumentando o número de pessoas acusadas, torturadas, e queimadas vivas. Há 02 motivos básicos pra isso. O primeiro é o sexo. Talvez por nunca ter me debruçado pra estudar, pesquisar com profundidade o que havia sido a Inquisição eu nunca tinha me ligado de como a sexualidade influiu nesses acontecimentos. As mulheres elas eram apontadas, acusadas, presas e violentadas dentro das prisões. Eram mulheres idosas, maduras, jovens virginais que eram arrancadas do seu lar, jogadas numa prisão soturna e estupradas antes, durante e após as sessões de tortura. Sim, e se você fosse mulher, bonita, atraente havia grande chance de você ser presa e destruída. Diz a sabedoria que o peixe só sabe falar do que tem dentro do seu próprio aquário, pois é, aqui essa realidade se faz presente. Aqueles lixos babando a luxúria, sedentos de desejos sexuais e que falavam que aquelas pessoas praticavam feitiçaria, acusavam no outro o que vivia muito forte dentro de si mesmos. Sim, as confissões tinham todos o mesmo padrão e roteiro. Em todas as pessoas tinham que confirmar que estavam num surubão, onde tudo (sexualmente) era permitido entre eles. Era esse o padrão-confissão. Sexo com o demônio, sexo pagão, sexo pra se divertir. Fica claro através dos textos dos acusadores que se você fosse uma pessoa mais tímida ou mais conservadora não conseguiria se dedicar a bruxaria porquê o quente nela, o que te torna um bruxo é a trepação. Que história mal resolvida que a humanidade tem com o sexo. A zica começou mal resolvida no Éden e chegou com toda tranquilidade aqui no século 21. Outro fator que fez a Inquisição prosperar é a ganância, a famosa ambição sem limites. A perversidade: após serem acusadas do crime que não cometeram e serem presas se inicia o processo contra a/o cidadã/o. Processos custam dinheiro. Quem pagava por eles? Ora o próprio acusado (o bruxo/a em potencial)! Sim, a pessoa é presa, torturada e morta pegando fogo viva e ainda tinha que pagar por isso. Como? Ora seus bens eram confiscados e vendidos ou ficavam a disposição das autoridades responsáveis pelo trabalho de um Inquisidor. Por isso era interessante acusar também pessoas abastadas financeiramente. Outras táticas que aprendemos é que a tortura tem graus e você jamais poderia aplicá-la em seus graus mais elevados de uma única vez (num único dia) pra evitar que a desumanidade atingisse o limite (a morte do torturado). É claro que isso não era impedimento. A única pessoa disposta a combater o sinistro dos fatos era o padre. Até que ele próprio é acusado e incrédulo vê algumas mulheres o acusarem. Sem entender o porquê elas faziam isso com ele se recordou do que lhe disse um dos poucos que estava a seu lado, um advogado “eu trabalhei durante anos com a lei, jamais subestime o poder da tortura”. Outro método típico dessa classe de pessoas teve muito sucesso nos anos 50 nos Estados Unidos (período que ficou conhecido também como “caça as bruxas”). Foi utilizado largamente por um político infame e causou um mal enorme pra milhares de vidas. O método: você é acusado de algo, e não pode ser defendido por ninguém, porque quando alguém vai te defender imediatamente essa pessoa também passa ser um alvo (afinal se ela está defendendo algo que teoricamente está errado é porque ela também tá no meio, quer dizer tá errada também). Vira uma loucura! Eu não posso defender aquela pessoa que está sendo injustamente acusada de algo porquê senão eu sou culpado também!!! Esse político americano se valeu desse método e mergulhou o próprio país numa era sinistra de perseguição contra qualquer pessoa que era “um inimigo”. Inúmeras pessoas perseguidas, sem trabalho e ter como ganhar a vida. Inúmeras pessoas do cinema tiveram que pegar suas malas, suas famílias e buscarem ajuda na Europa pra poderem continuar trabalhando e terem dinheiro pra se sustentar. Umas duas semanas antes de assistir esse filme eu tinha revisto “O Sétimo Selo” do Ingmar Bergman um filme de 1957. Nesse filme (cópia restaurada perfeita) um nobre está voltando pra casa na companhia do seu escudeiro depois de ter lutado durante anos nas Cruzadas. A peste está por todo lugar. Numa das cenas uma moça está sendo levada amarrada pra ser queimada viva acusada também de bruxaria e de trepar com o diabo. A jovem do filme do Bergman parece mais uma princesa nórdica famélica e desnutrida. Mas tá inteira. As mulheres levadas a fogueira no “Martelo“ estão arruinadas fisicamente, emocionalmente, moralmente, sexualmente. Há uma outra cena em que o escudeiro vê chegar uma romaria, tipo procissão e pergunta “como é que a modernidade pode acreditar nisso?” Bom, fé não se discute jamais. Agora o fato é que estamos no século 21, e a “modernidade” atual inclui muito, mais muito mesmo de temas que já deviam estar superados mas que continuam circulando vivíssimos por aqui. Se você fizer um exercício mental básico com muita tranquilidade vai ver que tudo que eu citei e comentei ali encima, tá bem aqui, aqui e agora.
“O Martelo das Bruxas” do cineasta tcheco Otakar Vávra, assim como o “O Sétimo Selo” do cineasta sueco Ingmar Bergman estão no YouTube.
Paulo Al-Funs, cinéfilo
