
poster de “Excluídos“
A premissa é bem interessante. E poderia funcionar bem melhor se em vez de buscar fazer suspense fake, fosse realizado como um drama. Porque aqui temos um drama.
O filme: Jovem mulher preta após conversa com irmã onde relata seus perrengues, desaparece.

Ashley Madekwe (Neve)
Corta. Anos depois a encontramos vivendo em cidade no interior da Inglaterra. Agora ela é uma mulher endinheirada. A mudança se insinua como radical. Não a conhecemos de fato no início. Neve (é seu nome atual) está casada com um homem branco e é mãe de dois filhos mestiços. Ou pretos de pele clara como ela própria. Neve é uma pessoa conhecida e reconhecida na sua comunidade. Vice-diretora de uma escola de elite, filantropa dedicada a causa dos mais aflitos e desvalidos. Boa esposa e mãe, uma lady black. Negando suas raízes, sua raça e ancestralidade, se espanta quando uma amiga lhe diz “você é quase uma de nós”. E é aí que a realidade surge na vida de todo aquele/a pessoa preta que atinge um status social diferente e superior do seu status original. E isto é válido para as Neves da vida, como para todos/as aqueles pretos/as conscientes de suas origens e que sabem e tem orgulho de quem são. Em algum momento a pessoa é lembrada de que não nasceu naquele meio. Não é uma exclusividade referente a só as pessoas pretas, e existe desde que surgiram as separações sociais no mundo. Mas as pessoas pretas são obviamente as que mais vão sentir. F. Scott Fitzgerald tratou disso muito bem no seu esplendoroso “O Grande Gatsby” (o personagem branco que chega lá nos cumes da riqueza, mas não é e nunca será como os que nasceram nela). Aqui nesse filme (que está longe de ser uma obra significativa) a narrativa se torna muito importante porque é atualíssima. E espinhosa. Neve é uma mulher preta e não é porque sua pele é quase branca que ela vai conseguir passar batido das situações que se apresentam. Não importa as perucas de cabelo liso, a sua educação adquirida, a elegância britânica do seu comunicar. A pele é um limite social real, difícil de transpassar por mais condecorações que tenha no seu meio profissional e dinheiro na sua conta bancária. Neve não apenas renega sua raça, mais que isso, ela age como se realmente acreditasse que é uma mulher de pele branca, o que causa um constrangimento que fica palpável no ar porque os outros personagens não conseguem se posicionar de forma clara diante dela e ficam pisando em ovos quando surgem assuntos com pautas sociais/raciais atuais que estamos todos (ou deveriam) estar discutindo (ou ao menos se conscientizando) e colocando na mesa. Seus par de filhos adolescentes tem consciência e se definem como pessoas pretas. E pessoas pretas em busca de descobrir sua negritude como quando sua filha resolve assumir os cachos ou trançar os cabelos. Neve acredita que dinheiro resolve tudo, e não é por aí né…

o cineasta e roteirista Nathaniel Martello-White
Corta. Tudo na primeira parte tem um ar fake, o que a princípio pode incomodar, mas depois você percebe que intencionalmente ou não, tem tudo a ver com a pretensa realidade que ali é apresentada. Esta realidade é fake, por mais que todo o seu entorno seja real, ela é fake porque é baseada, observada e vivenciada por uma personagem que construiu sua história em bases irreais ocultada pelo manto da falsidade.
A 2° parte muda o filme. E é aí que você sente que tem um diretor. A 2° parte é rica, dinâmica, tem uma outra vibe. Há 02 personagens novos em cena. Dois irmãos (irmã/irmão) pretos retintos saídos diretamente de uma Inglaterra que não nos é apresentada. Poderiam ter saído diretamente de um algum gueto novaiorquino, pela semelhança do agir, se portar, se comunicar. São viscerais. Seguem a linha nós existimos, não estamos aqui pra pagar simpatia, e vamos ocupar o nosso lugar. O contraste é violento. O que se segue vai depender de cada um, se é bom ou ruim. E do olhar que cada pessoa tem a respeito da vida e das circunstâncias que ela nos molda a medida que a vivenciamos. Temos aqui um caso de vingança. E onde há vingança há sempre o conflito do que é justo ou não. Não é por menos (a sabedoria do universo é infinita) que em Astrologia a balança (símbolo da Justiça) está entre o crítico signo de (♍) Virgem e o temível signo de (♏) Escorpião. Um aponta, a balança simbolizada por (♎) Libra apazigua, decide, sela a paz ou entrega nas mãos do vingador (o que cobra). Em termos astrológicos a vingança não está relacionada a este signo (♏) especificamente, e sim ao elemento ao qual ele pertence – Água. Todos os três signos de Água são vingativos. O que muda é a forma que atuam.
Há uma armadilha no caminho. De um lado uma protagonista preta (de pele clara) que rechaça sua origem racial. Do outro pretos retintos reafirmando através do estereótipo da agressividade e violência aquilo que toda pessoa branca espera ver. E nesse quesito o filme e nós (pessoas pretas) saímos perdendo.

Jorden Myrie e Bukky Bakray

Maria Almeida

Samuel Paul Small
⭐⭐ (regular)
Paulo Al-Funs
