Sempre tive maior vontade de conhecer “Dancin‘ Days” Das novelas antigas com certeza é a que mais me chamava atenção. Sempre vi uma mística muito grande nela, tipo aquele tipo de obra de arte que capta um momento, um tempo e por isso mesmo se torna absolutamente impossível e desnecessário uma regravação porque a magia de uma época não tem como retornar. A uns anos atrás assisti “Pai Herói” no Viva (a única que assisti no canal). Assisti com prazer porque também tinha maior vontade de conhecer um clássico da icônica Janete Clair. Gostei e embora não tivesse absolutamente ninguém com quem comentar, foi bom também nesse sentido, já que não recebi nenhum spoiler – e por isso tive um choque horroroso quando no último capítulo vi o André Cajarana personagem do Tony Ramos, ficar com a chatérrima Carina (personagem da Elizabeth Savala) em detrimento da espetacular Ana Preta imortalizada pela Glória Menezes. Demorei pra chegar no clássico do Gilberto Braga, mas tudo tem seu tempo. E cheguei na hora certa, já que no que pude pesquisar as primeiras reprises do app novelístico estavam causando perturbações nos expectadores por conta da transposição do material antigo para as telas que usamos agora. E nada melhor que começar sendo apresentado a uma novela tão especial.
Leio que as novelas estão em crise. Sim, não teria como não estar. Tudo mudou e ninguém é mais fiel de um único canal ou de uma única mídia. Eu assisto novela pelo que me recordo desde a infância da minha infância. Sou capaz de lembrar todas as que eu assisti e gostei, que não gostei tanto e aquelas que simplesmente depois dos primeiros capítulos já vi que não era pra mim. Das 03 novelas inéditas que a Globo exibia, ao menos uma assistia. Isso foi até princípios dos 90, porque já na adolescência você começa a ter vida própria e daí num dá mais pra ficar com a cara na tela o tempo todo. E acompanhar novela exige tempo. Tempo e concentração (dedicação). E tempo é muito valioso, e quanto mais velho você vai ficando mais seletivo ainda você vai ficando com relação a que gastar. Livro toma tempo, filmes, séries, música. Se não haver discriminação na escolha fica impossível. Tal como a Glória, não posso opinar sobre o que é exibido atualmente. O que posso falar eu já disse: sou contra refilmagens de obras-primas cinematográficas e contra regravação de novela clássica. Eu só assisti “Pantanal” versão anos 2000 porque na época não senti interesse nenhum em acompanhar o enorme sucesso que foi a “Pantanal” da rede Manchete. Essa não assisti, mas acompanhei “Dona Beija“. E gostei. Nunca assisti a nenhuma das mexicanas do $$. E a única que assisti na emissora de poder gospel, eu tenho como uma das melhores que eu já vi. Foi um prazer acompanhar “Escrava Mãe“, pra mim uma das melhores novelas já exibidas na TV. Se o mundo caminha pra frente, não é revival que vai trazer de volta grandes ibopes. Outra questão que eu enquanto telespectador posso comentar é: toda fórmula por melhor que seja, acaba. Pergunta pra qualquer roqueiro, e vai ver se ele não te confirma. A fórmula do Pink Floyd secou (cansou) no fim dos 70′, a do Led Zeppelin idem na mesma época. A da Blitz, a do “Engenheiros“, até a da “Legião” já estava esgarçada, antes mesmo do Renato partir. O cinema na sua essência de eterna mutabilidade só sobreviveu até aqui porque de geração em geração foi se reinventando. Implacavelmente seus foderosos produtores não se intimidaram em colocar pra fora o astro ou a estrela que eles sabiam que o público já estava cansado. Porque cargas d’água a emissora mais foderosa do país acha que seu padrão de qualidade iria continuar a fascinar seu público eternamente? Saturação. A fórmula “padrão Globo de qualidade” foi usada a tanta exaustão que a magia se dissipou e parece que as cabeças pensantes que a regem não perceberam isso. Não é meramente (ou gravemente) um problema de texto. É caso urgente de se reinventar.
Dancin‘ Days – os primeiros 30 capítulos
Primeiramente: A “mocinha” é uma ex-presidiária que ficou 11 anos na cadeia por uma morte na qual estava envolvida. Surreal. Olha a ousadia. Sinceramente, não me recordo de nada assim!!! Sônia Braga, atriz de clássicos cinematográficos que eu curto (ela e seus filmes), e também da clássica “Gabriela” está de baranga. E aí que vemos a atriz. A personagem funciona. Sônia escondeu dentro de si toda sensualidade e beleza que a gente tá acostumado a associar a sua pessoa. A sua Júlia é pesada, carrancuda, dura (e é a heroína). Taciturna, quase ou nunca sorri. É o retrato de alguém que viveu no inferno e sabe que mesmo em Liberdade sua vida jamais será a mesma. O que eu achei estranho é que o inferno (cadeia) que ela cumpriu seus dias (está em condicional) tem cara de spa prisional. Se as cadeias eram assim em 1978, só pode-se dizer que mudaram muito, e pra pior, nas décadas posteriores. Ela (a Júlia) não ajuda muito que a gente curta ela. Não, por conta do seu passado, mas pela ausência de uma leveza que seria irreal se tivesse na sua personalidade. Júlia está se envolvendo com Cacá (Antônio Fagundes). É inacreditável. O herói (?) da novela é um dos maiores malas que eu já vi!!!!! Da sono escutar ele falar. Fagundes realmente é muito bom, pra fazer com tanta segurança um tipo tão insonso. Mas os dois tem química. Júlia mora no apartamento de Mário Lago com sua família. É impossível não gostar do ator já na época veterano. Eu fico impressionado e confirmo pra mim mesmo que quando um ator faz um personagem que tem haver com sua natureza, ele simplesmente arrasa. Mário Lago era sagitariano, e o Alberico, o seu personagem é ♐ puro. Como todo signo do Fogo, um sonhador, cheio de planos, com uma realidade paralela muito própria. O maluco reina absoluto nas suas cenas e viagens. Sua esposa Lourdes Mayer (não conhecia a atriz) parece que saiu de uma das suas composições mais famosas. “Amélia“. Mário Lago é o autor de um dos maiores clássicos da música brasileira. “Amélia não tinha nenhuma vaidade, Amélia que era mulher de verdade”. É dessa senhora uma das frases mais brutais sobre sua relação matrimonial “um casamento só dura como o meu quando a mulher acredita em tudo que ele fala”. Me pergunto se foi proposital por parte do autor da novela, Gilberto Braga. Essa é a parte não tão positiva. Como se passaram tantos anos e muitos não estão aqui, tem perguntas que talvez nunca poderão ser respondidas. É na casa do seu Alberico que está uma das maiores jóias da novela (sem contar as outras que circulam por lá). Eu tô muito surpreendido pela personagem “Carminha” interpretada com maestria pela atriz Pepita Rodríguez. É de longe uma das personagens mais carismáticas da TV. Que casamento feliz. A atriz (que eu só conhecia de nome), empresta um carisma que é todo seu, a uma personagem que não tem como você não amar. A casa é frequentada por Milton Moraes, ator carismático e cinematográfico (é o Cachorrão do clássico da foda “Bonitinha, mas Ordinária” baseado na obra do despudorado Nelson Rodrigues) que partiu cedo. Na casa trabalha Marlene, personagem da atriz Chica Xavier, sempre com muita presença, e refletindo uma cena muito comum nessa época trabalhadoras do lar pretas que moram na casa dos empregadores. Também se ouve outra afirmação muito duvidosa a respeito dela, dita pela esposa do Alberico “é quase da família”. Outros frequentadores do lugar são a irmã do Jofre (Milton Moraes), feita por uma atriz simpatia e bem vivaz (Gracinda Freire, que eu também não conhecia ou simplesmente não me lembro), Yara Amaral (atriz morta numa tragédia coletiva), a esposa casada e traída por um homem quase sempre ríspido no seu expressar (Ivan Cândido), e surpresa minha, sua filha feita pela atriz Sura Berditchevsky. Aqui é necessário comentar. É uma das personagens mais interessantes, inteligentes da novela. É uma mina do século XXI numa novela dos anos 70, tem ótimas frases e argumentos. Ela não é simplesmente a feminista (aquela chata cagando regras), é uma mina que sabe o que quer, o que não quer, é independente, verdadeira, com uma moral própria, e muito equilibrada (e não tô falando de ser zen). A Inês é um ser humano de primeira. Pra mim, vem sendo uma surpresa total. A atriz fisicamente também é muito diferente, ela não chega a ser realmente bonita, mas tem um tipo de beleza que foge do padrão. Também tem uma sensualidade muito própria que a personagem obviamente não explora, e que pertence a atriz. Decidida, não quer um marido pra se escorar (tá enrolada com Eduardo Tornaghi, ator realmente bonito e que trabalha bem). O personagem do Tornaghi é filho da Cleyde Blota. Que atriz bonita, e de presença. Ao lado das personagens da Gracinda Freire e Jacqueline Laurence, elas vivem o drama de mulheres que não sendo tão jovens, desejam um homem pra chamar de seu. Completamente atual. Porque muitas mulheres mesmo estando bem financeiramente e realizadas profissionalmente ainda sim (e é bem justo) querem alguém pra se esquentar na cama numa noite de inverno. Ou dormirem apenas de camisola ao lado de uma coruja excitada. Há fogo nelas, algo que se fala muito hoje em dia, já que não é porque as pessoas vão envelhecendo que ficam desprovidas de tesão. Personagens atuais e o cenário também. Outro ponto pro autor. Os queridos pra qualquer noveleiro dos anos 80, 90 e 2000 não podiam faltar. Cláudio Corrêa e Carro e Ary Fontoura. Duas lendas carismáticas da TV. O personagem do Ary pelo que vou percebendo se vivesse nos dias atuais seria um fiel do OnlyFans. É pai de pet. Como qualquer personagem do Ary, uma figura. O personagem do Cláudio C. C. é tradicional, endinheirado, casado com a querida Beatriz Segall (que dispensa comentários). Como a maioria aqui dos já citados, sempre arrasou no que fez. Vivem o drama dos casais casados a muito tempo onde o amor deixou de se expressar e sobra-se os ranços. A temática do casamento é muito forte na novela toda. Era a época em que foi aprovado o divórcio no Brasil (?), mas mesmo assim quem ousasse se separar (a mulher, no caso), era a errada. Finalizando há a dupla Joana Fomm e José Lewgoy (com um sempre jovem e descolado Reginaldo Faria que tá com cara de que faz tripé nesse casal). Qual noveleiro não curte? Até o momento não consegui ver a Yolanda Pratini como vilã. Por uma única razão. Diz o sábio ditado que “mãe é quem cria” (e eu acredito e dou valor a ditados populares), e ela tá cuidando da cria dela. É exuberante. Impossível não ter prazer em ver Joana Fom em cena, ao lado do carismático José Lewgoy então, é game over. Ainda não tá claro, mas acho que ela pega o Hélio (Reginaldo Faria). Eu deixei a ala jovem pro final. Lídia Brondi, Lauro Corona e Glória Pires. Eu cresci vendo todos esses atores em cena na TV. Todos esses atores citados. Mas muitos ali já eram cobras criadas quando fizeram a novela. Glória Pires, Lauro Corona e Lídia Brondi, não. Eu fui um dos inúmeros fãs da Lídia Brondi que ficou órfão da sua atuação quando ela deixou de representar. Lídia e o ator Paulo Castelli (o gato dos gatos dos gatos), foram duas das personalidades mais interessantes que as novelas dos anos 80 nos presentearam. Ambos abandonaram o barco deixando milhares de fãs desabrigados de sua atuação. Eu, apenas um deles. Ela está muito jovem, verde e não mostra ainda (mesmo que o princípio esteja ali, visível) a atriz de primeira que se transformaria. Diferente de Glória Pires. Marisa, sua personagem inicia com 15 anos, a Glória tinha menos, mas é inacreditável como ela enche a cena. É uma adolescente, e exibe uma segurança que poucas atrizes com sua idade fariam. Você não vê uma jovem intimidada por atuar com as feras que ela contracena. Com 14, 15 anos ela está no caminho pra se tornar a estrela que ela se transformou. É um caso raro. Em qualquer lugar do mundo. Lauro Corona, era deslumbrante, uma vida curta mas uma carreira com atuações em obras marcantes.
Há abertura do Hans Donner é uma das mais clássicas. Muita energia, a música das Frenéticas vibra alto, mais sinceramente, até o momento no tocante ao restante da trilha, está bem medíocre. Com excessão claro da atualíssima “Amanhã” do Guilherme Arantes.
Outro lance que eu que tenho cabelos crescidos não posso deixar de notar e comentar é: como os homens tinham cabelos!!! Que diferença! Foi os anos 80 que fudeu com as madeixas masculinas e padronizou (os cortes) até hoje???
Finalizando, curtindo demais. O Brasil é um país de noveleiro. Sejam antigas ou novas, a gente sempre encontra uma pra acompanhar!!!!
Paulo Al-Funs
