Dancin’ Days – a saga continua (capítulo 30 aos 90)

A clássica novela se inicia com uma anti-heroína (Julia Matos/Sônia Braga) que estava presa e buscava em seus sonhos de liberdade reencontrar a filha que não chegou a “criar” e estava a 11 anos sem ver. Marisa (Glória Pires) é a típica (?) adolescente da zona sul carioca que foi acolhida pela tia biológica (mãe) Yolanda Pratini (Joana Fomm) e seu esposo (José Lewgoy) no momento mais difícil da vida da sua genitora que ficamos sabendo no decorrer do caminho pensou em colocá-la para adoção num orfanato. E que mesmo antes de ser presa nunca foi uma mãe presente. Temos um drama real aqui e nada incomum. Júlia almeja se encontrar com Marisa e falar “mamãe chegou”, como se fosse tudo tão simples. Obviamente é impedida pela irmã (que faz até o momento o papel materno da sobrinha). A torcida pelo re-encontro é grande? É. Júlia tem um certo magnetismo que atrai (em raríssimos casos, repele), a quase todos os outros personagens da novela que tem contato com ela. Teimosa que nem uma besta, só escuta a si própria. O egoísmo exala. Bom, pessoas de personalidade forte tem o poder de fazer com que outras pessoas de personalidades não tão decididas orbitem a sua volta. De uma forma muito justa e digna vai buscando resgatar sua vida, com trabalhos que surgem aqui e ali. É uma personalidade sofrida. Que se auto estigmatiza porque sabe que a sociedade vai fazer o mesmo com ela se descobrirem seu passado (na prisão). Pra tentar se aproximar da filha, com a ajuda de Verinha (Lídia Brondi) cria uma mentira, um nome fictício e consegue virar uma “amiga mais velha” da colegial (Marisa). Vale mencionar que Verinha é uma personagem esperta e logo sacou que o interesse de Júlia por saber sobre a vida de Marisa estava bem além do normal. Mas Vera é “do bem”. Júlia logo seria apresentado a face tenebrosa de Áurea (Yara Amaral).

17. A inauguração da tão esperada boate acontece. E é um acontecimento mesmo. Os personagens (quase todos) vão desfilar por lá. Há presença de famosos como Nana Caymmi dando canja. Eu curto pra ver o visual, é muito legal essa parte, o que era moda na época. Cabelos, roupas, a forma de dançar, as músicas. A trilha que sendo bem generoso nas palavras não passava de medíocre, agora ganha corpo com várias músicas de disco da época. Músicas que a gente conhece e tocam até hoje nas rádios. É um retrato da elite da época também. “17” é a boate dos ricos e descolados setentistas da sociedade carioca.

A novela dá um salto. Em algum momento vamos ser surpreendidos por Marisa e Beto (Lauro Corona), prestes a se casar. Não se explica. Somos simplesmente apresentados aos fatos. Verinha apostou na liberdade por igual entre as parcerias, e se enganou. Perdeu Beto. Acreditando que poderia continuar saindo com outro rapaz (um gato da academia de Ubirajara/Ary Fontoura), descobriu a preço de um coração quebrado (o próprio), que o machismo existe e é pra todos. Beto não aceita na boa ver sua princesa se divertindo sem ele e com outro na boate 17 e causa rebuliço. Vera é consolada por Carminha (Pepita Rodríguez) que dá um show explicando como o machismo é parte dominante na vida de todos nós (capítulo 40). Beto procura consolo em Marisa que tinha um crush nele. E quando damos por nós, os sonhos de Yolanda em ver a filha casada estão encaminhados. Júlia revoltada vai querer fazer com que Marisa desista e aí acontece o que prometia ser “a cena” da novela: a revelação de que é sua mãe. Mas a Júlia, a Júlia é muito equivocada no que acredita em como deve ser a sua comunicação em relação as outras pessoas. Ainda mas de um assunto tão delicado e revelador como: Eu sou sua mãe, porra! Marisa se casa e vai morar com Beto na casa dos pais dele. Mesmo tendo o jovem casal um apartamento todo decorado a espera deles. É curiosa a relação. São dois adolescentes (ela 16 e ele 19) aos quais não deveria ter sido permitido essa loucura de assumir um compromisso tão sério sendo tão jovens. Não são jovens só em idades. Mental e emocionalmente também. Rachei o bico quando os pais de ambos juntos perguntam onde eles querem passar a lua de mel, e a resposta é: Disneylândia. Não há paixão, apenas parece ser a relação de dois adolescentes que se dão muito bem, são amigos e curtem se pegar. Aqui e depois disso a uma mudança pouco sutil na personalidade do Beto: ele fica meio bitolado. Quase caí pro ridículo a tentativa de forçá-lo parecer um parvo. Algo que ele desempenha até bem, mas foge do conceito original da interpretação que estávamos sendo apresentados pelo ator. A personagem de Marisa se oculta um pouco na trama. E Verinha sem conseguir esquecer Beto paira sobre o casal, como uma perna de tripé que ainda não se estabeleceu. O casamento de Marisa abre as portas que leva sua mãe de volta a cadeia. (Ahhhh Áurea, como chama aquele lugar que está repleto de pessoas cheias de boas intenções e que você “ser do bem” devia estar?…). E aqui acontece outro fato curioso. Júlia, a protagonista sai novamente de cena. Pra mim é muito atípico isso. Uma anti (?) heroína que nessa primeira fase se mostrou sempre de forma que foge ao óbvio (ter participação em tudo e em todos os capítulos). A personagem Júlia fica realmente oculta em quanto a novela e seus demais personagens vão se desenrolando com suas histórias. Há outras mudanças. De forma oblíqua (não fica realmente constatado), Carminha parece estar conhecendo mais intimamente Franklin o personagem do Cláudio Corrêa e Castro, que ao mesmo tempo vê seu casamento já falido com Celina (Beatriz Segall), se desmantelar. Por isso Carminha se despede de seu partner Jofre (Milton Moraes) amigavelmente (é uma dupla muito gente fina). Por mais Carminhas e Jofres no mundo. Terminar uma relação de forma sensível mas não-emocionada (descontrolada emocionalmente), não sei se revela maturidade, mas com certeza amor-próprio, sim. Cacá, a mala que Antônio Fagundes nos apresenta tão bem se auto-descobre no divã. É um personagem curioso. Acredito que uma raridade na vida tão atuante do seu intérprete. Se tivesse oportunidade gostaria de saber dele como foi fazer esse cara complicado tão perdido em si mesmo e como ele o observa (se observa) através do tempo. É incrível a sabedoria que algumas pessoas carregam. Aqui me refiro ao autor Gilberto Braga. Cacá seria pela sua marcante característica de indecisão alguém que nasceu com o signo de ♎ forte no mapa. E aqui entra mais sabedoria (?) do autor (não acredito em coincidências). Cacá pela idade do seu personagem está vivendo o que em Astrologia chamamos de “o retorno de Saturno” um período crucial na vida de todas as pessoas que nos encontra pouco antes de entrarmos nos 30 (anos). E ele com sua crise típica dessa fase da vida vivência isso na novela. E a cereja do bolo pra melhorar é que o personagem ganha a vida pela elítica carreira de diplomata, profissão essa relacionada (astrologicamente) ao signo de ♎ (libra), que tem a habilidade de usar a comunicação pra se relacionar formando alianças (sem de fato se comprometer seja com A, B ou C). Firme e forte segue sua obstinação por Júlia, a mulher que nem o nome sabe, que em tudo a desconhece, e que conheceu durante uma tragédia (atropelou um doguinho e ainda por cima ia fugir sem prestar socorro, no que foi impedido pela nossa anti-heroína). Cacá se apaixonou no que parecia ser só tesão despertado por um beijo (lembrando que Júlia estava na seca a 11 anos. Ao menos na seca de homem). Incapaz de lhe esquecer encontra amparo na figura da sua amiga e confidente, a sempre lúcida Inês (Sura Berditchevsky), que tal como a prima Verinha, está sempre a testar os limites do machismo via relação com seu futuro ex (Eduardo Tornaghi). Cacá e Inês não são um casal apaixonante e nem apaixonados, mas, resolvem se assumir como parceiros para o projeto de um futuro relacionamento estável. Pra felicidade dos papais e mamães de ambos. Celina e Áurea querem ver seus rebentos encaminhados. E isso passa por uma aliança nos dedos. Pra piorar a tragédia bate a porta da casa de Inês. E de Cacá também. O que acaba unindo o que poderia ter outro destino. Num acidente de carro guiado por Franklin morrem Celina e Aníbal (Ivan Cândido, marido de Áurea). Ambos morreram porque não era lei no Brasil da época usar cinto de segurança nos carros. Ainda bem que as coisas nesse sentido evoluíram. A cena é didática. Tudo aquilo que não se deve fazer pra evitar uma tragédia. Celina nunca bebeu (além de champanhe), e se embriaga com whisky. Franklin nervoso e alterado no volante (pessoas com a cabeça quente não deveriam dirigir) dando carona a Áurea e Aníbal. Quando Franklin perde o controle do carro, Áurea sem cinto chega a ser jogada pra fora do carro. A cena do velório e posterior enterro é uma das mais verdadeiras que eu já vi. Foram pelo menos uns dois capítulos. E conseguiram captar toda a depressão que envolve esse tipo de situação. Eu não frequento nem velório e cemitérios. Conto nos dedos das mãos às vezes que fui, então me vejo observando atônito aquele desfilar bem real de um lugar (cemitério) que me causa tanta estranheza. É uma cena longa, longaaaaa. Você acompanha por minutos todo o cortejo. Lauro Corona e Cláudio Corrêa e Castro são a imagem da tristeza irreversível. Outra curiosidade é que a amante (uma das) do Aníbal foi no velório. Ninguém a conhecia. Mas sem dizer palavra, ficou lá, firme e forte em sua dor. Louvável. Quantos e quantas não aparecem pra se despedir numa hora dessas. Vivenciam sua dor, a dor da perda a distância. A partida do personagem também tira de cena o autor de duas pérolas que me divertiram muito. Pego em flagrante por sua mulher Áurea na saída do cinema (aqueles de rua), com uma outra amante e após ser colocado no freezer em casa pela esposa traída (no cinema ela fez cena), solta 02 frases que pra mim já entraram pros anais da cara de pau do sistema novelístico. “Eu tenho cara de marido que traí?” pergunta, a outra é “eu te perdôo pelo escândalo”. Rachei o bico. Celina antes de partir (coitada, viveu a vida toda sóbria, foi morrer embriagada), também deixa lições pra futura nora Inês “nunca pare de estudar”, “não abra mão da sua vida pelo seu marido”, “não fique como eu cuidando da família e depois que os filhos crescem, assistindo sozinha televisão na sala”. Celina antes de morrer fez amizade com Neide que era sua antiga funcionária, e que promete se vingar por Celina do mal que acredita que Franklin fez a amiga morta. Neide é um caso a parte. Ela é vilã. É interpretada por Regina Viana (atriz que eu não conhecia) com honras. É uma personagem onde a maldade é expressada especialmente no rosto e na sua postura. Difícil isso. Não é o que ela diz. Ou faz. Imagina uma atriz que usa os recursos que seu rosto dispõe pra mostrar o interior vilão da sua personagem. A forma dela olhar, as expressões. É incrível. Tem atores/atrizes que vestem o personagem como se ele tivesse sido feito de forma exata pra eles. Não podia deixar de esquecer. Alberico (Mário Lago) consegue mas uma vez se mostrar um empreendedor que tem por natureza fracassar nos seus empreendimentos. Dessa vez a vítima é sua escola de cooperagem, onde da aula Everaldo (Renato Pedrosa), uma figura que me diverte. Faz uma dupla com sua empregadora (Yolanda) gostosa de se ver. Ela por sua vez se separa do marido Horácio. Fiquei triste. Ele é muito gente fina. Não o amava mais. E o pior, revela pra ele que queria ter se separado a muito mais tempo, e só não o fez porque queria casar a filha antes. Foi dura com ele. E Júlia retorna da penitenciária com sede de vingança. E Ubirajara vai ser o seu instrumento para realizar suas vontades. Nosso voyeur se apaixonou profundamente e profundamente vai cego atrás da sua paixão, movida a ódio no momento. E é aqui que vemos que Júlia e Yolanda são faces da mesma moeda. Yolanda pede o divórcio depois que alcançou seu objetivo (casar a filha), e deixa ferido Horácio. O dinheiro é usado na manutenção do status quo via união Beto e Marisa. Júlia aceita a proposta de casamento (na real um contrato nu e cru) de Ubirajara pra conseguir atingir um novo status social via $ e conseguir competir com Yolanda. Ambas usam seus parceiros afetivos (ou que deveriam ser). Yolanda agora se relaciona com Hélio (Reginaldo Faria), o descolado e parece não ter idéia exata do preço a pagar pra bancar essa opção. Júlia agora acompanhada de duas fiéis amigas, Solange (Jaqueline Laurence) e a querida Mada (Neusa Borges) vai matando Cacá na unha, após chegar como estrela da sua viagem a Europa (o mundo capota né). E pela primeira vez nós a vemos como protagonista da novela das 8h. Sua entrada na agora recém inaugurada (ex 17), Dancin’ Days é um assombro. Sônia Braga abala geral. Já não falo da personagem, falo da atriz, porque quem da vida a Júlia e protagoniza aquelas cenas de dança na boate é a atriz Sônia Braga. Para e parou tudo. Seja solo, ou dançando com Paulette (Dzi Croquettes) ela destrói tudo.

Júlia (Sônia Braga) num visual ultra top com suas amigas Solange (Jacqueline Laurence e Neusa Borges) e Mada!

Paulo Al-Funs, autor

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Paulo Al-Funs

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