
cartaz de “Os Sonhadores”, 2003
É um filme que pode se dizer que é “jovem” já que foi realizado no início dos anos 2000. O tempo voa. Na minha cabeça era um filme feito “a poucos anos” e por isso estranhei o esclarecimento na abertura avisando que estava restaurado. Quando foi lançado tive uma leve curiosidade (por conta da época em que se desenrolava – os anos 60) em conhecer. Mas caiu de ser agora.
O filme: O jovem Michael Pitt (nem lembrava desse ator) está morando em Paris para estudar (por conta da faculdade “escapou” da guerra do Vietnã promovida por seu país) e como um bom cinéfilo (amante de filmes) está sempre em todas as salas de exibição como muitos outros jovens do seu entorno. Numa manifestação contra a demissão do gigante Henri Langlois (persona real amante de cinema fundador da Cinemateca Francesa altamente influente) conhece os irmãos gêmeos Theo e Isabelle (interpretados pelos ator Louis Garrel e pela atriz Eva Green). Rola aquela química que liga as pessoas que se atraem logo no início e eles começam a andar juntos. Não demora muito e o jovem americano que mora num hotel é convidado a passar um tempo no apartamento dos irmãos (enquanto os pais deles estão em viajem). Ao conhecê-lo a personagem de Eva Green diz “você é tão limpinho” numa referência a sua aparência em comparação com seu irmão. E ele realmente é – mas não só externamente. Ele é um “bom rapaz” que ao adentrar o mundo dos irmãos percebe que há um abismo entre sua realidade e a dos gêmeos (psicologicamente siameses). Os irmãos cinéfilos o conduzem abertamente para um jogo sexual. É. É um filme do Bertolucci o autor do chato “Último Tango em Paris” de 72. O casal de irmãos não transam – mas não deixa de ser uma relação que borda o incesto. Sendo um filme do Bertolucci o nu é mostrado nu e cru. Eva Green tem um despojamento total. Michael Pitt também. Já Garrel pouco ou nada se vê do seu peru (a não ser uma profusão de pelos púbis). Quem já assistiu ao “Último…” deve lembrar que o roteiro tem como carro-chefe o sexo. Aqui segue igual – mas não se compara os dois filmes. Eu me lembro a primeira vez que eu assisti a “Último Tango…” no longínquo ano de ’96 e não gostei nada. Há alguns anos senti vontade de rever – como sempre que eu assisto um filme muito badalado e não curto, sempre me permito dar uma nova oportunidade pra obra (vai que eu não curti daquela vez por um problema meu e não do filme). Resultado: nada mudou. Continua sendo um filme chato. Ao contrário deste “Os Sonhadores“. Que também não tem profundidade alguma. Quase nenhuma história. E muita nudez. Curioso que enquanto escrevia (eu sempre escrevo primeiro nas folhas do meu caderno pra depois digitar e quiçá publicar) me lembrei de duas coisas. O genitor (pai) dos gêmeos é poeta. E a família mora num apartamento que com certeza poucas pessoas no mundo já moraram ou frequentam. É imenso. Quase uma casa antiga nas alturas. Mesmo não aparentando luxo. É luxo. Ainda mais em Paris. A recordação que surgiu na mente: Alain Ronay, o amigo franco-americano de Jim Morrison da época de faculdade de cinema deste na UCLA da Califórnia e que morou com ele em Paris em 71 num apartamento emprestado pra Jim e sua parceira (que o deixou pra ficar morando com seu amante em outra parte da cidade), conta que quando a autoridade especialista em sinistros chegou ao apartamento onde Jim foi encontrado morto na banheira ele questionou a Alain (que o recebeu) qual era o nome do morto e sua ocupação. Ronay e sua amiga a cineasta Agnès Varda (que já tinham feito uma varredura no local se livrando de todo tipo de substância ilícita e já tinham decidido dar o mínimo de informação), se limitou a responder o nome Douglas James (nome invertido) e a ocupação/profissão poeta, ao que o agente criminal respondeu cético “um poeta? É a primeira vez que vejo um que vivia no luxo”. “De onde vinha o dinheiro?” “De rendas” devolveu Alain. Talvez, o pai do nosso personagem aqui também tenha muitas rendas, porque se tem uma classe que sempre viveu ferrada financeiramente em todas as épocas e séculos é a minha. Os únicos poetas endinheirados que eu já ouvi falar são os que já nasceram ricos como Shelley e Byron. A 2° lembrança que minha mente foi buscar foi que quem estava trabalhando no roteiro de “Último Tango…” na mesma época do fatídico encontro de Jim com o outro lado de lá era a… Agnès Varda. Não lembro se foi o próprio Alain Ronay que disse ou outro alguém que ela levou alguma coisa do impacto desse acontecimento para o filme que estava escrevendo. Nesse sentido me lembro de uma das cenas (talvez a única) que eu gostei do “Tango” que é quando o personagem do Marlon Brando se aproxima do corpo da sua esposa suicida disposto na cama e após xingá-la enormemente cai aos prantos numa das melhores cenas que eu já assisti na tela. A estrela Shelley Winters disse que ele merecia um Oscar só por essa cena. Assino embaixo. Morrison não ficou numa cama, seu corpo ficou 03 dias mergulhado numa banheira mantido a gelo (estava muito quente na época) que o dono de uma funerária trazia todos os dias para evitar que ele ficasse decomposto antes de ser liberado pelo agente pra ser enterrado. Bertolucci parece ter se lembrado na época de tudo isso também já que colocou o som do The Doors na trilha desse “Sonhadores“. PS: o apartamento (emprestado) onde Morrison estava acampado nos 03/04 meses que ficou em Paris e onde foi encontrado morto era de um produtor hollywoodiano. Obviamente, um local de luxo.
Uma coisa a se refletir sobre os “Sonhadores“: Quem está na ponta da lança de manifestações ou movimentos sociais são sempre jovens ou pessoas de classes abonadas financeiramente? Os gêmeos “rebeldes” aqui não pertencem ao proletariado – ao contrário, são “burgueses” e “lutando” provavelmente contra os valores da sua própria classe. Eu já ouvi falar que os hippies (que inquestionavelmente ajudaram a melhorar o mundo) também eram sempre filhos de uma boa situação financeira – e que os jovens menos favorecidos em grana ou estavam morrendo no Vietnã ou trabalhando pra ajudar a sustentar a casa. É uma pergunta que eu acredito que a resposta seja atualmente negativa.
Vale assistir? Sim, a cópia restaurada brilha – brilha até demais (assisti outro dia a “O Rei da Noite” e que está também numa restauração 4K o que transforma a tela num colírio excessivamente exuberante). Mas não busque profundidade, e deixe seus princípios pseudo-moralistas no armário.

Isabelle/Eva Green

Michael Pitt

Theo/Louis Garrel

Matthew e Theo

Isabelle

Pitt – Green – Garrel

Os Sonhadores
ps: optei em não publicar (mas queria) as fotos com o nu frontal do trio.
Louis Garrel, francês – 14/06/1983 🌞 ♊ 🌚 ♌ ASC ♊
Eva Green, francesa – 05/07/1980 🌞 ♋ 🌚 ♈ ASC ♍
Michael Pitt, americano – 10/04/1981 🌞♈ 🌚 ♋
Paulo Al-Funs – autor, cinéfilo, paranista.
