Dancin’ Days – a saga segue…

Os capítulos são divididos em blocos de 30 – então é nessa ordem que paro para escrever – os capítulos são curtos e nem sempre os cortes fazem sentido, no início eu achava que devia ter alguma enrolação com a edição, mas felizmente a uma página sobre a Globoplay na web que avisa que há partes que não puderam ser salvas por conta do mal estado das fitas originais, o que encurtou os capítulos – mas a edição é ótima e em nada atrapalha o segmento da história. Só que infelizmente vai haver passagens perdidas que nunca vamos conhecer. Julia Matos (Sônia Braga) voltou de viagem e se transformou numa personalidade atraente e fascinante da sociedade carioca. Às custas das ilusões que alimentou na cachola do muito querido Ubirajara (uma das muitas interpretações de primeira grandeza de Ary Fontoura), que acreditando que pode amar por dois, decide bancar seu sonho de ter Julia como esposa (no caso aqui só uma fantasia de namorada). Julia é uma anti-heroina nata. Seus defeitos saltam aos olhos. Assim como suas qualidades. É leal e amiga. Rancorosa e vingativa também. Dona de uma forte personalidade, nunca faz média e não deita pra ninguém. Ubirajara um pai de pet que é impossível não gostar. O que gera um certo ranço pela forma como ela o instrumentiza na sua escalada social cuja essência é de se vingar. Execrada pela filha Marisa (Glória Pires) aviltada pela irmã Yolanda (Joana Fomm), e incapaz de se ligar numa relação afetiva com Caca (Antônio Fagundes), é uma outra pessoa na casca. Interiormente continua a mesma que se mostrou desde o início. O tal do Caca… em algum momento vai dar um tapa no visual. A transformação ocorre quando finalmente corta o cordão umbilical com a mãe falecida que o conduziu a carreira de diplomata. Fagundes com 29 anos aparenta estar na casa dos 30. Incapaz de ter um relacionamento fofo com Julia (dois perturbados não se bicam) vai levando com a barriga seu noivado com Inês (Sura Berditchevsky) desde sempre uma personagem que eu curto (inteligente, esperta, autêntica, independente) mas que sendo tão segura de si, acaba não percebendo o que tá largado na própria cara. Confia no gato e não se liga que é do ser humano ter diversidade afetiva. No ponto que eu estou ela já tomou uma rasteira na sua auto confiança e o choque já deu pra ela dilatar as pupilas. Assertiva nas opiniões que envolvem a vida e relacionamento da mãe Áurea (Yara Amaral) não aproveita seus conhecimentos (teóricos) sobre relações afetivas em relação a si própria. Como se diz, é raro, mas acontece muito. Falando em Yara Amaral não me recordo de uma atriz de nossas telinhas e telonas tão italiana. Ela é muito intensa, e senhora de águas profundas. A sua Áurea é um mergulho em emoções muito intensas que ela vai trazendo a superfície ora aos trancos e barrancos ora com uma intensa delicadeza, suas cenas na boate que frequenta a tarde com um homem pra lá de casado mas que tal o peixe que não enxerga a água na qual vive, ela não vê, e a sugestão sexual dos toques das mãos de ambos é de uma sutilidade afrontosa. Yara Amaral é da mesma cepa das grandes italianas, se estivesse ainda entre nós, talvez tivesse atingido o topo de uma Anna Magnani, um ícone de uma dimensão tão grande que quando partiu provocou uma comoção nacional no seu país. Não, não morro de amores pela Áurea, mas a arte da sua intérprete é aula pra qualquer aspirante a sua profissão. Alberico do grande Mário Lago sofre de delírios de grandeza com picos de desejos inconfessos pelo fracasso. Tem idéias boas. Mas que mal geridas terminam em abortos que mal ultrapassam 22 semanas. Sua ideia em andamento de ter uma agência de frota de táxis lembra um pouco ou muito o modelo de Uber atual. Há de se dar crédito também a atriz Lourdes Mayer que faz sua esposa. Ela conseguiu um tom pra personagem que faz de dona Esther uma simpatia. É a personagem que mais contracena com a Marlene, personagem com muita personalidade feita pela querida Chica Xavier, que infelizmente tem poucas cenas, mas sendo uma atriz de presença tão marcante, jamais passa despercebida. Carminha (Pepita Rodríguez) é um sonho de tão gente fina que é. Amante de viúvo enrolado e chantageado para assim permanecer (Cláudio Corrêa e Castro) tem a vida que inúmeras outras pessoas muito gente boa tem: vive se fodendo por conta de querer ajudar/salvar os outros. Um pouco do individualismo da sua amiga Julia iria lhe fazer muito bem. Falando em Julia não tem como não falar de Marisa… Que figurinha egoísta. É um desfile de tudo que uma pessoa pode ter e ser de desagradável. No momento a inveja que está sentindo da sua amiga Vera Lucia (Lídia Brondi) a está dominando. Possuída pelo desejo de ser modelo fotográfico como Verinha que conseguiu por meios próprios (beleza/carisma) não consegue se conformar com o não que recebeu pra ter sua imagem cristalizada em foto de revista. É desagradável e tem a quem puxar. Ainda não aceita a mãe solo que a deixou aos cuidados da tia ao ser presa. Antes que eu me esqueça, adorei a cena em que Julia ao falar sobre a filha com Caca e ser perguntada sobre o pai da jovem, com uma sinceridade elogiável diz que não sabe quem é. Esse ‘não sabe’ no sentido de diversidade mesmo. Tinha 17 anos quando foi mãe. E quem já foi jovem sabe como as coisas podem ser bem intensas e bem vividas nessa fase. Contínuo fã da personagem Alzira da atriz Gracinda Freire e da própria atriz. É uma figura. Funcionária pública quer uma perna cabeluda (masculina) pra chamar de sua. Torço pra que encontre uma e tenha um final feliz. Hélio personagem de Reginaldo Faria vem mostrando que ser descolado depende muito de com quem se está. Depois de passar a novela flanando se envolveu com Verinha bem mais jovem que ele e o ciúme (nome da insegurança afetiva nas mulheres e sexual nos homens) vem lhe tirando a paz, a tranquilidade e o sono. Impossível não comentar: como Lauro Corona (Beto) era bonito. E trabalha bem! Gal Costa veio em festa na casa de Julia e cantou. Que loucura! A Gal era muito informal. Era outra persona. Lembrou algumas colegas da minha adolescência, no jeito e na aparência, todas maconheiras. Falando nisso, a Julia tem um spray no seu ap chamado anti-caretice, que pra bom entendor, não é necessário dois pingos nos iiss… Tem gente que curte incenso, da uma amenizada também no odor indescritível… Gal cantou, Mada (Neusa Borges) também, e mandou bem… Se o ap da Julia (quem é o ator gato que faz seu mordomo Roberto?) virou o point dos loucos, descolados (e endinheirados), o da Yolanda repousa na solidão. Após se separar do querido Horácio (José Lewgoy), tentar uma união com Hélio e ver seu sonho de unir o útil (dinheiro) ao encantador (amor) fracassar, começa a caçar homens endinheirados que a possam querer… Incrível, ela não desceu, ela despencou mesmo… Adorei o comentário da sua melhor amiga, a socialite Bibi (Mira Palheta) “Yolanda passou a não ser mais convidada pra jantares, porque se separou, e quando uma mulher se separa, as outras mulheres podem se sentir ameaçadas.” Resumiu bem (foi mais ou menos com essas palavras). Mas deixou claro porque divorciadas nessa época eram sempre coladas em adjetivos poucos simpáticos. Gosto muito da atriz Cleyde Blota (Emília) que voz que essa mulher tem. É puro mel. Muito agradável. Sua personagem muito bacana é sócia da Solange (Jacqueline Laurence) que se transformou na primeira atriz (e espero que a última) que morreu enquanto eu assisto a novela. Meio esquisito isso. Emília é a mãe do Raulzinho (Eduardo Tornaghi) que foi fazer a vida como médico num lugar distante e voltou (e foi de novo) muito gato. Vou finalizar comentando sobre a entrada do (Arthur) Mauro Mendonça. Que ator de presença! É um ator que frequenta nossas salas a décadas, sempre assim, mas que eu não conhecia nenhum trabalho dele na TV dessa época. Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976) é um clássico do cinema e do meu coração de cinéfilo. Ele é um dos maridos. Mas ver ele em cena depois de tanto tempo e nesse clássico das telinhas está sendo muito top. Concordo plenamente com o que o Arthur fala pra Julia sobre ela ficar com o Caca e serem felizes para sempre: “não vai dar certo”. Dancin’ Days não é perfeita, mas, é uma novela foda, que todo mundo que curte acompanhar uma boa história, bem contada, dirigida e interpretada com um elenco tão gigante, devia conhecer. Ou rever.

Paulo Al-Funs, autor

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Paulo Al-Funs

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