As Cidades da Noite

As Cidades da Noite“, 1964

Fazia anos, e anos que eu queria ler esse livro. Eu não tenho uma lista de livros pra ler no radar. Um ou outro muito pontual eu tenho vontade, mas, nada na base do “tenho que”. “As Cidades da Noitedo autor John Rechy desde que eu tomei conhecimento da sua existência num tempo muito distante eu desejei conhecer. Literatura de qualidade com narrativas de personagens de orientação gay são uma raridade no século 20. Busquei muito nos meus anos verdes, encontrei 02 que me marcaram muito Giovanni” (56) do James Baldwin e A Cidade e o Pilar” (48) do Gore Vidal. Ambos os livros fundamentais na minha existência. Em O Nome da Rosado Umberto Eco o foco não é uma história afetiva/sexual gay, ali o sexo rolou porque num ambiente (mosteiro) que muitas pessoas do mesmo sexo compartilham naturalmente isso acaba acontecendo. Sinceramente, não curti “Narciso e Goldmunddo Hermann Hesse também passado num ambiente de confinamento. Em Ciranda de Pedra” (54) clássico da nossa literatura da autora brazuca que mais me afetou Lygia Fagundes Telles, Letícia a personagem lésbica era mais uma entre as personagens interessantes do livro. O romance que foi transformado em “novela das 6” em duas épocas, até onde eu sei, nunca foi apresentado com a coragem que a sua autora mostrou a décadas passadas quando o publicou. Dificilmente a Globo faria isso, ainda mais no horário que essas novelas foram exibidas. Conrado era impotente (não conseguia trepar), sua irmã Letícia lésbica (começa feminina e depois se masculiniza), Otávia era solta e livre, mandou a virgindade às favas (sem nunca casar), e Bruna começa “santa” pra depois do casamento começar a adulterar. Virgínia que através do seu olhar transcorre a cenas, era a filhota rejeitada por ser “ilegítima”, começa perdida, sem saber o que se passa e depois como talvez diria Nelson Rodrigues vai compreendendo “a vida como ela é”. Espero que o cinema um dia faça jus ao romance, já que a TV… Todos esses livros são dos meus anos verdes, e talvez, se os relesse hoje se mostrassem (provavelmente) diferente pra mim Na casa dos 20 fui apresentado primeiramente ao filme (amei demais) Plata Quemada” (quem nunca viu corre, é um dos melhores dos anos 2000, na minha opinião) e depois fui atrás da fonte, o romance do mesmo nome (em português ficou “Dinheiro Queimado” – deviam ter permanecido com o título original) do autor Ricardo Piglia. É tão foda quanto o filme. Pra quem gosta de cinema e literatura de qualidade vai aí 02 indicações. Sugiro primeiro o filme, depois o livro. Agora, já uma pessoa antiquíssima aqui na Terra, finalmente me chega esse sonho de leitor juvenil não concretizado “As Cidades da Noite” (63) que por um tempo achei que nem existia traduzido na nossa língua. Spoiler: A edição que vou guardar comprada no maior site de sebo online da web (precisa dizer o nome?), é de 1964! O português escrito é o da época e as gírias também. Precisava ter um dicionário Ruy Castro ao lado pra me dizer o que é um cara “cheio de bossa”. Garçom é garção (na boa, fica mais legal na forma antiga). Na novela “Dancin’ Days” que estou na reta final, há gírias que até hoje permanecem e eu nem sabia que eram tão antigas tipo “sacou, estupidamente gelada” e a muito citada “transa” (tipo “ele não transou isso legal”). Transa era uma gíria da minha adolescência sempre relacionada a sexo, e não usada da forma natural como na novela ou melhor, nessa época (anos 70). Fico curioso pra saber quando ela adquiriu esse status sexual. Eu já a conheci e sempre usei nesse sentido. Não dá pra usar atualmente da forma como eles falam na novela porque algumas frases iriam ganhar outros sentido. Uma outra gíria (?) onipresente no livro é “fanchona” e ela não parece ter o sentido burocrático que os dicionários online que eu consultei anotam… Agora, agora o livro…

Spoiler Spoiler Spoiler

Jovem começa narrando sua vida, da infância onde ficou traumatizado com a perda da sua dog, a relação amorosa com a mãe, a relação complicada com o pai, a ida para o exército, tudo isso sob o sol escaldante do Texas e seu desejo de voar (conhecer o mundo, conhecer o que existe do outro lado de lá)… Solitário vai atrás do seu destino, ou talvez do que acredita ser o seu caminho, e chega na cidade grande, a inigualável Nova York. Como nos versos da canção do Belchior “sem $, amigos importantes, vindo do interior”, inicia uma odisseia sexual pelo submundo gay, e através do que vai vivenciando vamos sendo apresentados a uma sociedade, a um recorte dela que pegou muita gente (na época) de surpresa (menos é claro quem já fazia parte dela). O universo LGBTs do princípio dos anos 60 foi atirado sem nenhum amortecedor na cara da sociedade (conservadora) americana da época de forma abundante e explícita. … seu autor enfiou tudo e mais um pouco sem gel, vaselina ou qualquer outro amaciante que aliviasse aquela penetração. Ele desnuda o americano médio. E põe um fim em qualquer ilusão que uma pessoa comum poderia ter sobre relações afetivas/sexuais se darem apenas no plano ortodoxo heterosexual. Seus personagens sui generis existem, existiam e estavam ali para provar que também se movimentavam embaixo da luz solar da Terra. Sádicos, masoquistas, recalcados, presos em armários, camuflados em casamentos fracassados, perigosos uns, maldosos outros, travestidos, sonhadores, odiados, com culpa ou sem culpa, performáticos, desesperados, aviltados, perseguidos, humanos em suas glórias, tragédias, dores e vivências estão todos lá, a começar por Nova York, seguindo por Los Angeles, San Francisco, Chicago e finalizando em New Orleans. É uma comunidade gigantesca, com seus bares próprios, seus hotéis, seus cinemas, suas ruas (sim, é aquela vida refletida na música e vida do poeta musical sempre à margem Lou Reed, nas vidas obscuras da Factory do Andy Warhol, nos versos da canção L. A. Woman (The Doors) cujo refrão ‘city of night’ é uma referência ao título original do livro), suas vidas e gostos próprios, suas tragédias pessoais, sua luta pela sobrevivência num mundo completamente hostil a elas/es. Nosso herói não quer romance, quer sexo, quer prazer… a erva, as bolinhas (anfetaminas), o álcool ajudam a dar o gás, mas, mais que isso é uma busca sem fim que os move, uma busca por seus sonhos, por ser feliz, se realizar (essa coisa do americano de “chegar lá”), uma classe de pessoas (todo ou quase todo universo de LGBTs está aqui representado) que não importa o drama, a tragédia, ou comédia não está disposta a parar. E não parou. O livro foi escrito antes dos acontecimentos de Stonewall (69) um marco do movimento e que mudou tudo. Não, a vida não é perfeita, mas, cada um a vive da forma como lhe é possível. E essas personagens a viveram da forma que conseguiram.

As Cidades da Noite” tenho a impressão que não é mais impresso no Brasil (a despeito de ser um clássico mundial da literatura e um marco do seu gênero), a edição que eu comprei (1964) vou guardar pra mim. Eu cresci como leitor através de todos os livros que li de uma biblioteca municipal. Eu não tenho apego a livros provavelmente por isso. Livro é conhecimento e eu aprendi que conhecimento se passa adiante. Há mais de 20 anos eu não entro numa biblioteca pública, os livros que eu compro (do sebo virtual não citado acima), ficam um tempo comigo depois eu passo adiante. Os que permanecem é porque são realmente muito importante, como esse que demorei tanto tempo pra ler… Essa edição de páginas amareladas com tradução de Fernando Teles de Castro, desenho da capa de Eugênio Hirsch, é da Editora Civilização Brasileira, e espero sinceramente que alguma editora o relance um dia novamente no mercado. Merece.

ps: entre as folhas desse clássico estavam três bilhetes amarelados, dois com nomes e telefones cariocas (o sebo é do Rio) e um com esse recado que eu achei muito poético, compartilho aqui…

Paulo Al-Funs – autor

Publicado por

Avatar de Desconhecido

Paulo Al-Funs

Alguém que escreve e às vezes também publica...

Hey, se expresse com vontade!