Pequena Homenagem

Eu gostaria de fazer uma pequena homenagem a um homem que nada sei, e o pouco que sei me levou a escrever este post. Ênio Silveira. Gente que realiza trabalho de bastidor sempre me interessou. Sou fã de realizadores de cinema (diretores e produtores), de música (fiquei fascinado pelo André Midani quando li sua autobiografia). Esses dias atrás fiz um post sobre o romance “As Cidades da Noite” que havia lido, e duas perguntas ficaram na minha mente. Como esse livro estava aparentemente fora de catálogo (?) e como uma história tão punk havia sido publicada no Brasil da ditadura de 64 (?). Pesquisando no dr. Google, me veio em parte as respostas. A Editora Civilização Brasileira (que hoje pertence ao grupo Record) que publicou o livro, foi fundada em 1929, e até os anos 50 continha muito pouco material no seu catálogo que não fosse didático. Até a chegada nessa época do jovem (escorpiano do ano de 1925) Ênio Silveira. Um amante de livros. Entusiasta, logo aumentou significativamente o catálogo da editora trazendo títulos modernos com temas diferenciados e publicando autores brasileiros do qual era um incentivador. Acreditava realmente no poder transformador da literatura na vida das pessoas. Nos primeiros anos da década de 60 a “Civilização” já era uma potência literária. E seus problemas por conta do seu editor e suas publicações começaram a florescer. Ênio era militante e a “Civilização” se tornou o QG das mentes que não aceitavam o período trevoso que o país tinha embarcado. Nenhuma editora ou editor se opôs tão frontalmente ao regime ditatorial. Nenhuma e nenhum foram tão brutalmente perseguidos. Seus livros passaram a ser confiscados, seus autores perseguidos, e Ênio preso várias vezes com direito a ter sua própria casa invadida. Nunca abaixou a cabeça ou se curvou. Lutando contra todas as adversidades permaneceu fiel a si mesmo, inovando na divulgação dos livros (anúncio em outdoor), como na publicação da moderna literatura brasileira e gringa (não à toa As Cidades da Noitefoi publicado em 1964 um ano após seu lançamento lá fora). Um democrata, jamais deixou de lutar pelo seu (nosso) país. E algo que eu gostei de saber, ele não era desses que acreditava que livros foram feitos apenas para serem apreciados por uma pequena casta.

Em geral, as pessoas evitam ler, seja porque realmente não gostam, seja porque não se interessam em desenvolver o hábito da leitura, seja por pura preguiça mental, não importa o motivo, até aí se respeita, já que gosto é gosto, e cada um tem o seu. Mas essa onda de reprimir, querer decidir o que as pessoas podem ler, retirar livros das escolas, das bibliotecas, é o fim da picada (em qualquer lugar do mundo). Pautas identitárias progressistas e pautas conservadoras reacionárias não tem esse direito e nem essa liberdade a ser exercida em cima das pessoas. É o fim da picada conservadores querer ditar o que é moralmente aceitável para uma pessoa ler. É o fim da picada progressistas quererem boicotar um autor porque ele é (assumidamente) contra suas pautas. Nesse sentido tanto uns como outros (progressistas e conservadores) estão agindo como duas faces tirânicas da mesma moeda.

Quem não lê, mal ouve, mal fala, mal vê“. Slogan da Civilização Brasileira.

Paulo Al-Funs – autor

Publicado por

Avatar de Desconhecido

Paulo Al-Funs

Alguém que escreve e às vezes também publica...

Hey, se expresse com vontade!