O Homem do Braço de Ouro, 1955 (The Man with Golden the Arm)

cartaz do “Homem do Braço de Ouro

É um filmaço, eu não sei porque tava tão desejoso de escrever sobre ele, assisti anteontem, mas, sabia que tinha que escrever… meu texto mais recente publicado foi sobre um filme sobre alcoolismo, e por “coincidência” esse trata de um tema similar, que é o vício numa droga ilícita (heroína), o que acaba fazendo uma dobradinha… Voltando ao termo coincidência eu simplesmente não acredito que ela exista, como diz o mestre do clássico Adonai, são os livros que nos chamam, porque possuem algum ensinamento que naquele momento está nós sendo ofertada a oportunidade de saber, conhecer, aprender, e eu acredito muito nisso, e não acho que são só os livros, os discos (a música em si), os filmes, sempre são eles que nos chamam e se você prestar atenção vai ver que sim, que eles sempre tem alguma palavra/conhecimento/ensinamento que podemos agregar… vamos lá, o filme:

Frankie (Frank Sinatra)

Frankie personagem interpretado pela lenda Frank Sinatra, acaba de sair de um período de férias forçadas numa clínica do governo (prisão) onde estava pra se desintoxicar do vício que o dominava, e retorna ao seio (figurativo) da sua esposa fiel, e paralítica, disposto a mudar de vida não querendo seguir pelos velhos caminhos que o trouxeram até ali, e pra isso vai ter que travar uma luta interna (consigo próprio) e externa, com os demais (figuras do seu passado)… não vai ser fácil pra esse cara boa gente, cheio de boa vontade, e que realmente deseja/sonha uma vida melhor… ao seu redor há uma esposa chantagista emocional que quer que ele continue no mesmo ofício (jogador campeão de cartas em antros clandestinos – por isso é chamado de “braço de ouro”), e que é um atraso completo na vida dele (é feita pela lindíssima Eleanor Parker numa atuação que resume tudo o que uma esposa jamais deve ser), há o ex patrão que não aceita perder o seu melhor jogador e seu sócio (o traficante de heroína) que domina Frankie através do seu vício, aqui também não dá pra passar batido e não comentar a interpretação do ator Darren McGavin (o traficante), sinuoso, insidioso, venal, ambivalente, sedutor, além é claro de amigos que mais atrasam o seu lado do que ajudam, enfim… mas nem tudo está perdido, Frankie ainda tem alguém que o ama com sinceridade a ponto de acreditar nele e estimular sua vontade de vencer, sim é uma paixão, feita pela estrela Kim Novak… a loira é um mulherão, é uma mulher muito terrena, sensual, cheia de curvas, e um rosto de traços duros e sério, não é como a Marilyn Monroe por exemplo, a estrela blondie glamourosa e que tá mais perto de uma fantasia (um ideal de mulher/amante) do que uma mulher de carne e osso, Kim Novak não passa isso, ela é real, e sua presença física e a força de seus traços deixam isso muito nítido, ambos Frankie e Molly são dois personagens de caráter, lutando contra as intempéries da vida, e se virando como podem na luta pela sobrevivência… como Frankie quer crescer como músico, a trilha sonora é o mais fabuloso jazz que você vai ouvir, a música pulsa, é viva, tal como uma personagem da estória e não apenas uma acompanhante ela se faz presente ditando o ritmo, as pausas, os movimentos da câmera dando a impressão que toda a atuação do elenco, o desenrolar das cenas fosse feito pra acompanhar a trilha, e não o contrário (eu fiquei muito impressionado), o bom gosto e requinte do cineasta é um caso à parte, sou fã do trabalho do Otto Preminger (é o diretor de um dos filmes mais favoritos da minha adolescência “Bom Dia, Tristeza“) que me apresentou uma das minhas atrizes favoritas dessa época, Jean Seberg, uma princesa-deusa, única com seu cabelo dourado (originalíssimo pra época) bem curtinho, também dirigiu Anatomia de um Crime“, 1959” que devia ser assistido e conhecido por todas as feministas e por todas as pessoas que trabalham com a lei e que ainda culpam a mulher quando ela é estuprada (mais de 60 anos depois de realizado ainda temos o discurso da “mulher que foi violentada por causa da sua roupa”), sociedade não evolui né?

Kim Novak (Molly)

Outro lance que merece ser comentado é, toda a ação aqui se passa em cenários onde os personagens lutam pra sobreviver, isto é, um filme com personagens financeiramente pobres e que circulam em seus ambientes humildes, e isso é mostrado também de forma exemplar, o cinema brasileiro sempre mostrou mais esse lado da vida do brasileiro, mas, em Hollywood por conta da propria natureza do povo norte-americano, eles sempre preferiram mostrar o lado vencedor, isto é, o lado dos que “chegaram lá”, sim, mostra pobreza, mostra, mas não tanto como aqui, nua e crua, os cineastas europeus que fizeram a Hollywood clássica ser a “Hollywood clássica” faziam isso, mostravam através do seu olhar estrangeiro a outra face da sociedade americana, aquela que eles próprios (os americanos) nunca quiseram muito ver, às vezes (os cineastas) pagavam preços caros também, ora ameaçados, ora perseguidos, ora boicotados, mas eram gigantes e não se intimidavam (esse filme aqui não apenas foi dirigido como também produzido pelo Preminger, quer dizer, saiu $$$ do bolso do seu realizador), por último não tem como não falar mesmo, nunca fui especialmente tocado pelo ícone Frank Sinatra, mas o cara tá bom demais, ele simplesmente é o Frankie, sabe quando o ator parece ter encontrado a essência do seu personagem, é isso, Sinatra foi premiado com um oscar por sua atuação em A um Passo da Eternidade“, de 1953, mas, justiça seja feita, seu grande papel é esse aqui (sim, minha opinião) finalizando, a cópia em preta e branca está perfeita, e pra mim é um filme que merece ser visto no cinema, na maior tela que tiver, quem quiser conhecer ou rever, está no YouTube.

o cineasta Otto Preminger na labuta do seu ofício

Paulo Al-Funs

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