
Melhorou bem numa revisão… Eu já tinha assistido a alguns anos atrás, e achei um bom filme, mas, agora revendo, vi que é muito maior, é um grande filme mesmo… Ray Milland faz um alcoólatra – logo nos primeiros minutos somos (quem assiste, só uma forma de falar) apresentados a um dos truques clássicos das pessoas que sofrem com essa doença – que ao ficar sozinho em casa por 04 dias se entrega completamente ao vício que o domina e do qual estava procurando manter distância… Sua descida no inferno é cruel… Queimado na rua, na vizinhança (é conhecido como o homem gentil que bebe) só consegue comprar sua bebida em cash, o que torna sua situação ainda mais problemática…

As situações e aflições que uma pessoa alcoolizada vai vivenciando vão sendo apresentadas… um alcoólatra sempre está em risco e perigo permanente… há o risco de cair, se machucar, ser atropelado, ser atacado, tudo é possível, e a tudo se é apresentado na tour infernal do personagem… O drama familiar de quem tem na família, ou conhece alguém assim não fica de fora (aqui é personificado por um irmão, uma namorada, e até uma jovem que é atraída por ele…) Não é fácil… Jane Wyman que faz a namorada, não era uma atriz bonita, mas talentosa e está ótima (é um dos destaques), sua voz é muito agradável, e sua personagem é uma guerreira (nunca uma coitada), lúcida, confiante, valente, lutando, e lutando pra resgatar o homem que ama, nunca desistindo dele, ou disposta a deixá-lo livre para a concorrente (a bebida)… Quem tem (na família) ou conhece, é amigo de alguém que vive esse drama, vai se identificar com as situações mostradas… Tem que ter estômago, mas, pra quem resolver se arriscar, vale e muito conhecer… Ray Milland da um show, provavelmente, se não for seu maior papel, é um dos… a atriz (Doris Dowling) que faz a jovem atraída por ele, é sexy, e tem olhos rasgados… Foi ao que parece o primeiro filme – é de 1945! – a tratar do tema (alcoolismo)… ao que parece, a (poderosa) indústria etílica reagiu mal (era de se esperar)…

Palmas para o diretor (Billy Wilder), ao produtor (Charles Brackett) ao elenco e equipe envolvidos, por mostrarem que cinema não é só entretenimento, e é possível fazer cinema realista, mesmo ao custo e com a possibilidade de terem suas carreiras atrapalhadas mas, deixando pra pessoas (nós) uma obra como essa… infelizmente (por conta do tema) atual… O final, fica aberto, não há final feliz (a vida não é assim) mas há a esperança de que ele (eles todos) consiga se salvar…

🌚 Publicado originalmente na Curtipoesia em 12/11/2018
Paulo Al-Funs – autor, cinéfilo
