The Delta

Cartaz de “The Delta”, 1996

Um filme bem básico, bem realizado. Tem cara de filme de diretor novato, meio cru, mas funcional. Simples, mas bem realizado. A fotografia é granulada, o que o deixa mais com cara de cinema, do que alguns filmes que eu assisti recentemente restaurados em 4K. É o segundo filme no ano que eu assisto desse cineasta (Ira Sachs) independente.

O filme: Jovem divide sua rotina, entre uma ficante, as baladas com seus amigos, e a caça por sexo em points frequentados por outros caras gays nas madrugas, no sigilo, e em lugares que ele não frequentaria normalmente. Encontra um tipo com tendência dúbias que não quer só sexo… A cidade onde moram parece ser pequena, e curioso, parece haver uma colônia de vietnamitas. Em resumo é isso, mas, o que o torna interessante é mostrar um recorte da realidade de um rapaz gay no armário e num cenário em que muitos como ele possivelmente podem se identificar. Quem nunca caçou em noites escuras, em lugares ermos e distantes, e se envolveu com algum tipo que o alerta de perigo gritava e mesmo assim, fechava os olhos e deixava se levar? Quem nunca? Tem haver só com o universo LGBTs? Não creio. Sexo per si só oferece riscos independente da orientação sexual de quem o faz… O coração acelera a mil e torna tudo mais quente… (e falo claro das minhas próprias vivências na idade do protagonista, tempo do cio…)

The Delta

The Delta

Shayne Gray 07/04/1972 🌞 ♈

Ira Sachs 21/11/1965 🌞♏ 🌚♏ ASC ♉

Paulo Al-Funs – autor

Dancin’ Days – a saga segue…

Os capítulos são divididos em blocos de 30 – então é nessa ordem que paro para escrever – os capítulos são curtos e nem sempre os cortes fazem sentido, no início eu achava que devia ter alguma enrolação com a edição, mas felizmente a uma página sobre a Globoplay na web que avisa que há partes que não puderam ser salvas por conta do mal estado das fitas originais, o que encurtou os capítulos – mas a edição é ótima e em nada atrapalha o segmento da história. Só que infelizmente vai haver passagens perdidas que nunca vamos conhecer. Julia Matos (Sônia Braga) voltou de viagem e se transformou numa personalidade atraente e fascinante da sociedade carioca. Às custas das ilusões que alimentou na cachola do muito querido Ubirajara (uma das muitas interpretações de primeira grandeza de Ary Fontoura), que acreditando que pode amar por dois, decide bancar seu sonho de ter Julia como esposa (no caso aqui só uma fantasia de namorada). Julia é uma anti-heroina nata. Seus defeitos saltam aos olhos. Assim como suas qualidades. É leal e amiga. Rancorosa e vingativa também. Dona de uma forte personalidade, nunca faz média e não deita pra ninguém. Ubirajara um pai de pet que é impossível não gostar. O que gera um certo ranço pela forma como ela o instrumentiza na sua escalada social cuja essência é de se vingar. Execrada pela filha Marisa (Glória Pires) aviltada pela irmã Yolanda (Joana Fomm), e incapaz de se ligar numa relação afetiva com Caca (Antônio Fagundes), é uma outra pessoa na casca. Interiormente continua a mesma que se mostrou desde o início. O tal do Caca… em algum momento vai dar um tapa no visual. A transformação ocorre quando finalmente corta o cordão umbilical com a mãe falecida que o conduziu a carreira de diplomata. Fagundes com 29 anos aparenta estar na casa dos 30. Incapaz de ter um relacionamento fofo com Julia (dois perturbados não se bicam) vai levando com a barriga seu noivado com Inês (Sura Berditchevsky) desde sempre uma personagem que eu curto (inteligente, esperta, autêntica, independente) mas que sendo tão segura de si, acaba não percebendo o que tá largado na própria cara. Confia no gato e não se liga que é do ser humano ter diversidade afetiva. No ponto que eu estou ela já tomou uma rasteira na sua auto confiança e o choque já deu pra ela dilatar as pupilas. Assertiva nas opiniões que envolvem a vida e relacionamento da mãe Áurea (Yara Amaral) não aproveita seus conhecimentos (teóricos) sobre relações afetivas em relação a si própria. Como se diz, é raro, mas acontece muito. Falando em Yara Amaral não me recordo de uma atriz de nossas telinhas e telonas tão italiana. Ela é muito intensa, e senhora de águas profundas. A sua Áurea é um mergulho em emoções muito intensas que ela vai trazendo a superfície ora aos trancos e barrancos ora com uma intensa delicadeza, suas cenas na boate que frequenta a tarde com um homem pra lá de casado mas que tal o peixe que não enxerga a água na qual vive, ela não vê, e a sugestão sexual dos toques das mãos de ambos é de uma sutilidade afrontosa. Yara Amaral é da mesma cepa das grandes italianas, se estivesse ainda entre nós, talvez tivesse atingido o topo de uma Anna Magnani, um ícone de uma dimensão tão grande que quando partiu provocou uma comoção nacional no seu país. Não, não morro de amores pela Áurea, mas a arte da sua intérprete é aula pra qualquer aspirante a sua profissão. Alberico do grande Mário Lago sofre de delírios de grandeza com picos de desejos inconfessos pelo fracasso. Tem idéias boas. Mas que mal geridas terminam em abortos que mal ultrapassam 22 semanas. Sua ideia em andamento de ter uma agência de frota de táxis lembra um pouco ou muito o modelo de Uber atual. Há de se dar crédito também a atriz Lourdes Mayer que faz sua esposa. Ela conseguiu um tom pra personagem que faz de dona Esther uma simpatia. É a personagem que mais contracena com a Marlene, personagem com muita personalidade feita pela querida Chica Xavier, que infelizmente tem poucas cenas, mas sendo uma atriz de presença tão marcante, jamais passa despercebida. Carminha (Pepita Rodríguez) é um sonho de tão gente fina que é. Amante de viúvo enrolado e chantageado para assim permanecer (Cláudio Corrêa e Castro) tem a vida que inúmeras outras pessoas muito gente boa tem: vive se fodendo por conta de querer ajudar/salvar os outros. Um pouco do individualismo da sua amiga Julia iria lhe fazer muito bem. Falando em Julia não tem como não falar de Marisa… Que figurinha egoísta. É um desfile de tudo que uma pessoa pode ter e ser de desagradável. No momento a inveja que está sentindo da sua amiga Vera Lucia (Lídia Brondi) a está dominando. Possuída pelo desejo de ser modelo fotográfico como Verinha que conseguiu por meios próprios (beleza/carisma) não consegue se conformar com o não que recebeu pra ter sua imagem cristalizada em foto de revista. É desagradável e tem a quem puxar. Ainda não aceita a mãe solo que a deixou aos cuidados da tia ao ser presa. Antes que eu me esqueça, adorei a cena em que Julia ao falar sobre a filha com Caca e ser perguntada sobre o pai da jovem, com uma sinceridade elogiável diz que não sabe quem é. Esse ‘não sabe’ no sentido de diversidade mesmo. Tinha 17 anos quando foi mãe. E quem já foi jovem sabe como as coisas podem ser bem intensas e bem vividas nessa fase. Contínuo fã da personagem Alzira da atriz Gracinda Freire e da própria atriz. É uma figura. Funcionária pública quer uma perna cabeluda (masculina) pra chamar de sua. Torço pra que encontre uma e tenha um final feliz. Hélio personagem de Reginaldo Faria vem mostrando que ser descolado depende muito de com quem se está. Depois de passar a novela flanando se envolveu com Verinha bem mais jovem que ele e o ciúme (nome da insegurança afetiva nas mulheres e sexual nos homens) vem lhe tirando a paz, a tranquilidade e o sono. Impossível não comentar: como Lauro Corona (Beto) era bonito. E trabalha bem! Gal Costa veio em festa na casa de Julia e cantou. Que loucura! A Gal era muito informal. Era outra persona. Lembrou algumas colegas da minha adolescência, no jeito e na aparência, todas maconheiras. Falando nisso, a Julia tem um spray no seu ap chamado anti-caretice, que pra bom entendor, não é necessário dois pingos nos iiss… Tem gente que curte incenso, da uma amenizada também no odor indescritível… Gal cantou, Mada (Neusa Borges) também, e mandou bem… Se o ap da Julia (quem é o ator gato que faz seu mordomo Roberto?) virou o point dos loucos, descolados (e endinheirados), o da Yolanda repousa na solidão. Após se separar do querido Horácio (José Lewgoy), tentar uma união com Hélio e ver seu sonho de unir o útil (dinheiro) ao encantador (amor) fracassar, começa a caçar homens endinheirados que a possam querer… Incrível, ela não desceu, ela despencou mesmo… Adorei o comentário da sua melhor amiga, a socialite Bibi (Mira Palheta) “Yolanda passou a não ser mais convidada pra jantares, porque se separou, e quando uma mulher se separa, as outras mulheres podem se sentir ameaçadas.” Resumiu bem (foi mais ou menos com essas palavras). Mas deixou claro porque divorciadas nessa época eram sempre coladas em adjetivos poucos simpáticos. Gosto muito da atriz Cleyde Blota (Emília) que voz que essa mulher tem. É puro mel. Muito agradável. Sua personagem muito bacana é sócia da Solange (Jacqueline Laurence) que se transformou na primeira atriz (e espero que a última) que morreu enquanto eu assisto a novela. Meio esquisito isso. Emília é a mãe do Raulzinho (Eduardo Tornaghi) que foi fazer a vida como médico num lugar distante e voltou (e foi de novo) muito gato. Vou finalizar comentando sobre a entrada do (Arthur) Mauro Mendonça. Que ator de presença! É um ator que frequenta nossas salas a décadas, sempre assim, mas que eu não conhecia nenhum trabalho dele na TV dessa época. Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976) é um clássico do cinema e do meu coração de cinéfilo. Ele é um dos maridos. Mas ver ele em cena depois de tanto tempo e nesse clássico das telinhas está sendo muito top. Concordo plenamente com o que o Arthur fala pra Julia sobre ela ficar com o Caca e serem felizes para sempre: “não vai dar certo”. Dancin’ Days não é perfeita, mas, é uma novela foda, que todo mundo que curte acompanhar uma boa história, bem contada, dirigida e interpretada com um elenco tão gigante, devia conhecer. Ou rever.

Paulo Al-Funs, autor

Amores Expressos

cartaz de “Amores Expressos“, 1994

O filme: São 02 histórias. E aqui tem uma pegadinha que eu não tinha me ligado. O título fala de amor no plural, e na minha cachola eu achei que a primeira história era a história do filme. Isto é, aquele noir do início seria o filme que eu iria assistir. E não é. 1° história: Mulher alicia (ao que parece) imigrantes indianos para traficar drogas (ao que parece como mulas). Numa dessas situações as coisas fogem do seu controle e ela terá que arcar com as consequências do seu vacilo. Na mesma história um homem vive as desventuras de um romance malfadado do qual não consegue esquecer sua ex-namorada. Dentro ou entre essas duas histórias há um cara que se liga a uma outra mulher cuja relação é a quintessência de um amor expresso, puro sexo selvagem…

A 2° história ou o segundo conto é mais longa que a primeira, ou assim me pareceu, e tem duas personagens feitos por um ator e uma atriz com muito carisma. Homem abandonado por sua mulher, também não a consegue esquecer, frequenta o mesmo ambiente que o primeiro personagem da primeira história (uma lanchonete dessas que tem em todo lugar, como aqui no Brasil – aliás, o filme tem alguma coisa (brasileira) bem presente, talvez essa mistura de pessoas, indianos no primeiro, com os orientais (é um filme chinês) aquela coisa da simplicidade, dos lugares comuns onde circulam (nós) pessoas comuns, não há glamour, é tudo muito natural, por isso causa logo no início uma identificação (ao menos no meu caso), pessoas comuns em situações comuns… Há algo de sujo, podre, ordinário, meigo, solitário e carente, me tocou de tal forma que eu não consigo encontrar as palavras que eu gostaria pra descrever… resumindo, personagens humanos em histórias pra lá de humanas… Ainda mais assistido numa época em que bombam hoje, ontem e anteontem chifres virais, não tem como não pensar no que o filme traz em seu título: amor e se expresso é sinal de à jato, fudeu tudo… O filme já tem algo de datado, enquanto assistia os símbolos dos anos 90 iam surgindo, filmadora antiga, fax, toca cds, o cd em si, produtos eletrônicos que hoje podem repousar tranquilamente num museu, e nessas você percebe literalmente que o tempo passou e estamos realmente numa outra era (eu simplesmente não sabia de que época era o filme quando escolhi pra assistir, eu não gosto de saber nada antes, nesse sentido o mínimo pra mim é mais, muito mais), os créditos foram trazendo pra mim a recordação do nome do cineasta (Kar-Wai Wong), depois veio a confirmação que era dos anos 90 mesmo (94). A música. É inebriante. Que é aquilo… É hipnótica na primeira história, e se mistura a um som caliente do passado, e penetra nas entranhas, numa combinação de sensualidade, desejo, sexo, calor…o brazuca “Bacurau” tem uma trilha foda que se entrelaça com a história, uma dessas raridades que acontece no cinema, mas aqui a música trepa com a filmagem… Eu gostei muito, muito…

Vale conhecer? Com certeza.

Pontos altos: os atores carismáticos (Takeshi Kaneshiro, Faye Wong, Tony Leung Chiu-wai) trilha ardente e o calor que provoca em quem tem a mesma forma insana de amar…

Pontos medios: um certo ar datado que se mistura ao clima retrô e indefine as imagens num visu atemporal…

Takeshi Kaneshiro – 11/10/1973🌞♎🌚♈

Faye Wong – 08/08/1969 🌞♌

Tony Leung Chiu-wai – 27/06/1962 🌞♋🌚♉

Kar-Wai Wong – 17/07 🌞♋

Amores Expressos…

Amores Expressos…

Amores Expressos…

Faye Wong e Tony Leung Chiu-wai

Faye Wong

Tony Leung Chiu-wai

Tony Leung Chiu-wai

Takeshi Kaneshiro

Takeshi Kaneshiro

Amores Expressos…

Paulo Al-Funs – autor, cinéfilo.

Estranha Forma de Vida, 2023

cartaz de “Estranha Forma de Vida

É um curta. 31 minutos. Passa bem rápido. Pedro Almodóvar, cineasta espanhol nascido num dia de fez um filme estiloso exercitando características caras ao seu 🌞 natal. ‘filho’ de Vênus e portando carregando no DNA características da sua genealogia não abre mão da beleza (quem escreveu aquele ditado “que beleza não se põe na mesa” não conheceu nenhum nativo do signo ou conheceu e com certeza devia ter raiva, porque pra ♎ beleza é e sempre vai ser fundamental, em tudo, seja nas pessoas, objetos, animais, casas, trabalho, visual). O curta do Almodóvar estiliza no figurino (a história se passa no velho oeste), e se realiza na escolha dos atores. Ethan Hawke, gato na juventude mostra nos poucos mais de 50 outonos que está ótimo ostentando todos os pés de galinhas e algumas rugas que qualquer ser humano que não morreu tem direito (mesmo um astro de Hollywood), os jovens José Condessa e Jason Fernández unem beleza com virilidade, Manu Ríos parece um rosto instagramavel. O tão comentado Pedro Pascal parece encantar muitos olhares aqui e ali.

O filme: Homem chega a uma cidade onde houve um crime (feminicidio) que a lei na figura do sherif Hawke pretende elucidar já sabendo quem é (na verdade principal suspeito). Depois de 02 décadas, Pascal, o cavaleiro que chega vai ao encontro do seu antigo parceiro pra um reencontro surpresa, motivado por questões pessoais familiares e disposto a talvez uma conversa sobre um passado que ficou pra trás.

Eu não sei como é a experiência de uma pessoa ao assistir um filme. A minha é a de um ♊ que tal como Mercúrio seu deus-pai regente vai linkando (ligando) tudo. As memórias surgem naturalmente (nunca em sentido nostálgico, mas numa constante atualização de dados), então é muito natural pra mim estar assistindo alguma cena, e acessar na mente algo que se relaciona com ela. Eu me lembrei de “Ben-Hur” clássico total dos anos 50 da idade de ouro hollywoodiana. Em “Ben-Huro personagem Messala personificado por um viril, bonito e sexual Stephen Boyd volta a sua cidade de origem disposto a relembrar e se ligar novamente ao seu amigo/parceiro de muitas aventuras (atualmente chama brotheragem), o Ben, vivido pelo supra sumo da masculinidade hétero top cinematográfica da época Charlton Heston. Já escrevi a anos atrás em outro post de outro filme como os autores sempre foram livres pra escreverem o que quisessem nos seus livros. Levar esses livros e atualizá-los para o cinema é que era o problema, porque a sociedade assistia muito mais filmes do que lia, e sempre houve o falso moralismo hipócrita que predomina nas relações sociais. Colocar cenas gays em filmes era um exercício mental que roteiristas e diretores tinham que rebolar o cérebro pra resolver. Não só cenas de personagens gays da literatura. Margaret Mitchell autora da obra-prima …E o Vento Levou (1936) narra abertamente no seu livro que sua personagem Scarlett O’Hara só sentiu prazer pela primeira vez ao transar (isso no 3° marido e após 03 filhos), quando foi violentada pelo parceiro embriagado. No filme de 1939, o produtor Selznick traduziu a cena com a atriz Vivien Leigh (intérprete da personagem) acordando alegremente e cantarolando. Como …E o Vento Levou (o livro) era best seller desde seu lançamento (o mundo inteiro o estava lendo) não precisou de muita explicação pras pessoas saberem que a alegria de Vivien (Scarlett) era por ter gozado pela 1° vez. Em “Em Cada Coração um Pecado” de 1942, os parceirinhos Robert Cummings e Ronald Reagan dão um abraço apertado no quarto e na cama depois de um longo tempo sem se verem, tendo a personagem da Ann Sheridan noiva do personagem de Reagan atrás da porta apertando o coração, consciente de que na Terra há coisas que você passa por cima, não se apega e segue a vida. Em “Rebecca, a Mulher Inesquecível” de 1940, o genial Hitchcock mostra a obsessão amorosa da governanta interpretada pela Judith Anderson por sua amante e empregadora numa cena curiosa: cheirando a roupas íntimas da sua parceira. Hitchcock era demais. Gênio é gênio. Se o cidadão/ã médio que ia ao cinema não se ligasse no status da relação das duas, é porque o tipo era realmente lento no seu pensar. Estou citando aqui exemplos aleatórios que vão surgindo enquanto escrevo. Mas qualquer leitor ou cinéfilo deve ter os seus na mente. Lamentavelmente muitas histórias boas baseadas em livros de sucesso que tinham personagens tidos como promíscuos, libertinos, gays, lésbicas, amorais ou imorais naufragaram na tela quando foram transformados em filmes. Porquê? Por conta de roteiros cujos produtores resolveram cortar demais o produto original pra poderem agradar um público mais conservador e dos livros que se baseavam suas histórias saíram filmes que não tinham nada a ver com a obra original resultando num arremedo fraco e fracassado. Faltou visão a esses senhores. Visão porque qualquer pessoa sabe que mesmo o mais terrível conservador (seja de que época for) gosta de uma boa sacanagem, de histórias que revelam não só o melhor mas também o pior do ser humano, e o tema sexo está presente na vida das pessoas desde que o “mundo é mundo” né. Seja consentido, abusivo, gay, lésbico, hétero, solto, reprimido ou libertino (surubado) a história da humanidade é contada através do sexo. Gore Vidal (um dos roteiristas) e William Wyler (o diretor) tiveram que rebolar pra vender pra sociedade dos anos 50 a história de despeito amor rejeitado e sua ira vingativa de Messala por Ben-Hur na negativa deste em não querer reviver “aqueles tempos mais prazerosos”. E venderam bem. O filme é campeão de Oscars e uma das melhores produções de cinema épico que Hollywood já produziu. Wyler mostra no seu clássico a relação de Heston/Boyd em pouquíssimas cenas no início, mas, que os dois atores exploraram muito bem.

Depois de toda essa exortação cinéfila/literária vamos lá… O curta é bom, provável que seria um longa interessante também (nunca assisti um faroeste ruim que me lembre, por mais fraca que seja a história), mas o veterano Almodóvar se decidiu por um pequeno filme na duração e grande na ousadia e assim foi. E é digno de reconhecimento que um cineasta nascido em 1949 esteja ainda realizando de forma eficiente o seu ofício. Quem ganha somos nós.

Pedro Pascal chegando…

Hawke e Pascal o reencontro pós 02 décadas…

Pascal como Silva.

Jake e Silva na juventude…

Os dois Pedros… Almodóvar e Pascal.

Almodóvar entre seu elenco masculino… cowboys estilosos…

Messala (Stephen Boyd) e Ben-Hur (Charlton Heston) comemorando o reencontro anos depois, no clássico de 1959.

Ethan Hawke, americano, 06/11/1970🌞♏ 🌚

Pedro Pascal, chileno, 02/04/1975 🌞♈🌚 ♑

Pedro Almodóvar, espanhol, 25/09/1949 🌞♎

Paulo Al-Funs, autor.

♀️O filme Rebecca, a Mulher Inesquecível lançado em 1940 foi baseado no livro homônimo da autora Daphne Du Maurier que por sua vez foi baseado no livro da autora brasileira Carolina Nabuco. Aqui no Brasil o romance foi transformado em novela “A Sucessora” nos anos 70. Sou curioso pra saber se a Globo e o autor e a direção da novela tiveram coragem de bancar a personagem lésbica da trama, na novela interpretada pela gigante Nathalia Timberg.

Não aguentou esperar, e foi na calçada gozar…

O bofe chegou 
sem avisar,
Desceu da moto
E foi ao lado
do seu prazer
deitar
Ele estava num estado
louco de tesão,
Foi logo acariciando
a parceira,
com emoção
Não conseguiu aguentar
E ali mesmo
na calçada,
na luz da manhã
Começaram a trepar...

Só não sabiam
que havia pessoas
a gravar,
e logo seu vídeo
Iria viralizar...

Paulo Al-Funs

❣️ uma singela homenagem aos personagens de Santos e suas peculiaridades…

10.000 Km

cartaz de 10.000 Km

Assim que começa 10.000 Km e surge na tela a personagem de Alex por cima de Sergi eu me lembrei de “Na Cama” um dos muitos filmes que eu assisti no “Cine Arte” no início dos anos 2000 aqui em Santos. Tivesse minha mente a ousadia de ir mais adiante e chamasse meu coração pra participar da recordação eu me lembraria também de como “Na Cama” começou com um casal trepando e não muito depois caiu num profundo tédio, porque a menos que seja um porno, não tem filme que resista a uma completa falta de história cujas cenas mais interessantes aconteceram logo no início. Alex cavalga sobre o pau de Sergi até gozar para iniciarem uma conversa sobre a possibilidade de no ato terem conseguido fazer um filho. Os devaneios duram pouco. Alex recebe uma mensagem a comunicando que ganhou uma bolsa pra realizar seu sonho – estudar fotografia no exterior, no caso, nos EUA. No caso tendo de decidir sem ter muito tempo pra pensar se deixa o parceiro, o sonho de ter filho e a vida comum que leva em Barcelona para trás. Pausa. O que você faria? Alex quer ir, mas joga a responsa pelos seus sonhos no colo de Sergi, que simplesmente não tem outra alternativa a não ser incentivar a parceira que ele realmente ama, o que significa ficar sem a sua presença física por 01 ano (além de adiar também por esse tempo o desejo de ser pai). O que segue é o drama do tédio. Só dois personagens em cena que vão passar todo o filme mergulhados em sua solidão particular procurando através dos meios possíveis (internet e telefone) se comunicar e manter acesa a chama da paixão. Pausa. Tu aguentaria? Há limite (de tempo) para o amor? O quanto você é capaz de esperar pela realização do sonho do outro? Tem casais que moram em casas separadas, mas, se vêem todos os dias. Tem casais que um dos parceiros está sempre viajando, mas, em algum momento ele/a volta pra casa, tem casais que pedem um tempo um para o outro pra ver a quantas está a relação e se seus sentimentos ainda se mantém fiéis de um para o outro. Há diversos tipos de casais, cada qual com sua combinação particular. Essas perguntas vão surgindo depois, só depois. Eu tenho por modus operandi escrever sobre um filme (e eu escrevo sobre todos os quais assisto) só depois de 01 ou 02 dias. Se eu fosse escrever sobre 10.000 Km assim que terminei minha sessão particular, ia só ter palavras duras. Agradeço muito por ser assim. Porque o sentido só foi vindo depois. Natalia Tena é uma atriz masculinizada. Não digo sapata, mas, masculinizada como muitas mulheres atualmente. Enquanto assistia pensava se não podia ter sido feito por outra atriz mais bonita e com algum carisma, e depois me apercebi do nome, que também é ou soa masculino “Alex”, pra finalmente perceber depois de assistido que o cineasta simplesmente inverteu os papéis. É ou era sempre o homem que busca a realização dos seus sonhos e quem até então ficava em stand by era a mulher (é necessário dizer que se trata de um casal cis?). E isso é mostrado no filme desde o início, basta lembrar que eu já mencionei lá encima, que no sexo ela está por cima. Sergi é um amor. Interpretado pelo ator David Verdaguer ele é gostoso, sexy, carismático e não se fica indiferente ao seu drama. Trabalha bem. Seria um sonho de parceiro, assim como tem muitas mulheres que seriam um sonho de parceira, mas que no decorrer de uma história romântica são atropelada/os pela realidade da vida. Nesse sentido, vale assistir o filme.

Alex e Sergi

10.000 Km (2014)

Natalia Tena, inglesa, 01/11/1984 🌞♏ 🌚♒

David Verdaguer, espanhol, 28/09/1983 🌞♎ 🌚♊ ASC♐

Paulo Al-Funs, autor, cinéfilo e otras cositas mas…

Os Sonhadores

cartaz de “Os Sonhadores”, 2003

É um filme que pode se dizer que é “jovem” já que foi realizado no início dos anos 2000. O tempo voa. Na minha cabeça era um filme feito “a poucos anos” e por isso estranhei o esclarecimento na abertura avisando que estava restaurado. Quando foi lançado tive uma leve curiosidade (por conta da época em que se desenrolava – os anos 60) em conhecer. Mas caiu de ser agora.

O filme: O jovem Michael Pitt (nem lembrava desse ator) está morando em Paris para estudar (por conta da faculdade “escapou” da guerra do Vietnã promovida por seu país) e como um bom cinéfilo (amante de filmes) está sempre em todas as salas de exibição como muitos outros jovens do seu entorno. Numa manifestação contra a demissão do gigante Henri Langlois (persona real amante de cinema fundador da Cinemateca Francesa altamente influente) conhece os irmãos gêmeos Theo e Isabelle (interpretados pelos ator Louis Garrel e pela atriz Eva Green). Rola aquela química que liga as pessoas que se atraem logo no início e eles começam a andar juntos. Não demora muito e o jovem americano que mora num hotel é convidado a passar um tempo no apartamento dos irmãos (enquanto os pais deles estão em viajem). Ao conhecê-lo a personagem de Eva Green diz “você é tão limpinho” numa referência a sua aparência em comparação com seu irmão. E ele realmente é – mas não só externamente. Ele é um “bom rapaz” que ao adentrar o mundo dos irmãos percebe que há um abismo entre sua realidade e a dos gêmeos (psicologicamente siameses). Os irmãos cinéfilos o conduzem abertamente para um jogo sexual. É. É um filme do Bertolucci o autor do chato “Último Tango em Paris” de 72. O casal de irmãos não transam – mas não deixa de ser uma relação que borda o incesto. Sendo um filme do Bertolucci o nu é mostrado nu e cru. Eva Green tem um despojamento total. Michael Pitt também. Já Garrel pouco ou nada se vê do seu peru (a não ser uma profusão de pelos púbis). Quem já assistiu ao Último…” deve lembrar que o roteiro tem como carro-chefe o sexo. Aqui segue igual – mas não se compara os dois filmes. Eu me lembro a primeira vez que eu assisti a Último Tango…” no longínquo ano de ’96 e não gostei nada. Há alguns anos senti vontade de rever – como sempre que eu assisto um filme muito badalado e não curto, sempre me permito dar uma nova oportunidade pra obra (vai que eu não curti daquela vez por um problema meu e não do filme). Resultado: nada mudou. Continua sendo um filme chato. Ao contrário deste Os Sonhadores. Que também não tem profundidade alguma. Quase nenhuma história. E muita nudez. Curioso que enquanto escrevia (eu sempre escrevo primeiro nas folhas do meu caderno pra depois digitar e quiçá publicar) me lembrei de duas coisas. O genitor (pai) dos gêmeos é poeta. E a família mora num apartamento que com certeza poucas pessoas no mundo já moraram ou frequentam. É imenso. Quase uma casa antiga nas alturas. Mesmo não aparentando luxo. É luxo. Ainda mais em Paris. A recordação que surgiu na mente: Alain Ronay, o amigo franco-americano de Jim Morrison da época de faculdade de cinema deste na UCLA da Califórnia e que morou com ele em Paris em 71 num apartamento emprestado pra Jim e sua parceira (que o deixou pra ficar morando com seu amante em outra parte da cidade), conta que quando a autoridade especialista em sinistros chegou ao apartamento onde Jim foi encontrado morto na banheira ele questionou a Alain (que o recebeu) qual era o nome do morto e sua ocupação. Ronay e sua amiga a cineasta Agnès Varda (que já tinham feito uma varredura no local se livrando de todo tipo de substância ilícita e já tinham decidido dar o mínimo de informação), se limitou a responder o nome Douglas James (nome invertido) e a ocupação/profissão poeta, ao que o agente criminal respondeu cético “um poeta? É a primeira vez que vejo um que vivia no luxo”. “De onde vinha o dinheiro?” De rendas” devolveu Alain. Talvez, o pai do nosso personagem aqui também tenha muitas rendas, porque se tem uma classe que sempre viveu ferrada financeiramente em todas as épocas e séculos é a minha. Os únicos poetas endinheirados que eu já ouvi falar são os que já nasceram ricos como Shelley e Byron. A 2° lembrança que minha mente foi buscar foi que quem estava trabalhando no roteiro de “Último Tango…” na mesma época do fatídico encontro de Jim com o outro lado de lá era a… Agnès Varda. Não lembro se foi o próprio Alain Ronay que disse ou outro alguém que ela levou alguma coisa do impacto desse acontecimento para o filme que estava escrevendo. Nesse sentido me lembro de uma das cenas (talvez a única) que eu gostei do Tangoque é quando o personagem do Marlon Brando se aproxima do corpo da sua esposa suicida disposto na cama e após xingá-la enormemente cai aos prantos numa das melhores cenas que eu já assisti na tela. A estrela Shelley Winters disse que ele merecia um Oscar só por essa cena. Assino embaixo. Morrison não ficou numa cama, seu corpo ficou 03 dias mergulhado numa banheira mantido a gelo (estava muito quente na época) que o dono de uma funerária trazia todos os dias para evitar que ele ficasse decomposto antes de ser liberado pelo agente pra ser enterrado. Bertolucci parece ter se lembrado na época de tudo isso também já que colocou o som do The Doors na trilha desse Sonhadores“. PS: o apartamento (emprestado) onde Morrison estava acampado nos 03/04 meses que ficou em Paris e onde foi encontrado morto era de um produtor hollywoodiano. Obviamente, um local de luxo.

Uma coisa a se refletir sobre os Sonhadores: Quem está na ponta da lança de manifestações ou movimentos sociais são sempre jovens ou pessoas de classes abonadas financeiramente? Os gêmeos “rebeldes” aqui não pertencem ao proletariado – ao contrário, são “burgueses” e “lutando” provavelmente contra os valores da sua própria classe. Eu já ouvi falar que os hippies (que inquestionavelmente ajudaram a melhorar o mundo) também eram sempre filhos de uma boa situação financeira – e que os jovens menos favorecidos em grana ou estavam morrendo no Vietnã ou trabalhando pra ajudar a sustentar a casa. É uma pergunta que eu acredito que a resposta seja atualmente negativa.

Vale assistir? Sim, a cópia restaurada brilha – brilha até demais (assisti outro dia a “O Rei da Noite” e que está também numa restauração 4K o que transforma a tela num colírio excessivamente exuberante). Mas não busque profundidade, e deixe seus princípios pseudo-moralistas no armário.

Isabelle/Eva Green

Michael Pitt

Theo/Louis Garrel

Matthew e Theo

Isabelle

Pitt Green Garrel

Os Sonhadores

ps: optei em não publicar (mas queria) as fotos com o nu frontal do trio.

Louis Garrel, francês – 14/06/1983 🌞 ♊ 🌚 ♌ ASC ♊

Eva Green, francesa – 05/07/1980 🌞 ♋ 🌚 ♈ ASC ♍

Michael Pitt, americano – 10/04/1981 🌞♈ 🌚 ♋

Paulo Al-Funs – autor, cinéfilo, paranista.

Passagens

cartaz de “Passagens”

O tesão do cinema é que ele não para. Multifacetado, está sempre se reinventando. E sempre oferecendo oportunidades de se conhecer novos trabalhos ou antigos trabalhos que você não conhecia. E é muito bom que nem tudo que a gente assista seja ótimo. O cinema também tem lugar pra filmes que são bons passatempos bem dirigidos, bem interpretados mesmo dentro de histórias batidas como essa. Passagens filme recente lançado em 2023 é desses filmes que você acompanha, curte enquanto rola, e quando você pensa que “aquele algo a mais” vai acontecer, ele termina. E meio que surpreso você olha pra tela e pergunta “é isso mesmo?”

A história é batida porque toda história de relacionamentos são batidas né. Quem não viveu aquela situação, vai vivenciar aquela outra, ou a outra, ou a outra, mas em geral romances, amores, relacionamentos, estão na vida de todos e de todo mundo. A redundância é proposital. Alguém já falou que histórias de amor são clichês? Provavelmente. Essa é mais uma. Num filme o diferencial vai estar ligado diretamente ao que o seu diretor quis nos proporcionar. Sua visão, o seu olhar.

Vai ter spoilers

O filme: Cineasta finaliza seu filme se sentindo meio inseguro ao que vai ser do seu filhote agora que ele foi lançado. Numa relação rotineira com seu parceiro, se interessa por uma mulher na balada, fica com ela e acaba curtindo. Sem muito dilema existencial (ou culpa), se muda pra casa da jovem (levando quase tudo que é seu), deixando o parceiro no vácuo. Bom dizer que a moça sabe que o romance da vez acabou de sair da casa que ele compartilhava com um parceiro gay. Não há enganos. Nada a ser descoberto nesse sentido. Em tempo mínimo de convivência (ainda estão na fase da experiência), ela fica grávida. E chama os pais pra conhecerem o genro e pai do seu neto. Não tem como ficar ao lado dela nessa hora. Não tem como ficar ao lado de uma pessoa adulta que já desabafou com a mãe e que no primeiro encontro com o parceiro da filha, vai questioná-lo sobre seu recém finalizado relacionamento com outro homem e quer garantias de que sua filha e seu neto que ainda não nasceu terão todo apoio que uma mãe e uma criança precisam para enfrentar a vida. O personagem reage. E você assistindo também. E a pergunta que fica é: na hora que tu estava fodendo você chamou seus pais pra gozarem contigo? Se a resposta é não, então porque você pessoa madura e independente agora é quase permissiva em aceitar essa invasão de relação, de intimidade?

O pegador. Não, ele não é pegador. Aqui entra o clichê sobre ter falado que você já viu essa história em outros filmes. Ele se empolga com ela, transa, gosta (fazia anos que não tinha sexo com mulher, e curtiu esse revival), e num ato de ‘vou viver uma nova história’ se joga pra casa dela. O problema é: (o clichê) ele não esquece o parceiro, continua o procurando, e interferindo no direito dele seguir a vida em um novo relacionamento com outro cara. Tu já viu isso em vários outros filmes, a diferença é que quase sempre num triângulo mulher-homem-mulher.

Depois de spoilear…

O que fica? Vale assistir? Vale conhecer sim. Pelo seu bom elenco: Ben Whishaw (que faz o parceiro a deriva), está quase irreconhecível, é um ator versátil (o único que eu conhecia), o cineasta em dupla crise matrimonial é feito pelo ator Franz Rogowski, e a atriz Àdele Exarchopoulos forma o trio de desamor que pra mim não é um triângulo já que conta com a participação do novo romance do personagem do Ben, o ator Erwan Kepoa Falé (que também tem seus momentos de perrengue por ter se envolvido com um cara que não finalizou ‘direito’ seu relacionamento anterior). Boa direção (Ira Sachs) e uma fotografia que agrada aos olhos (Josée Deshaies). No geral, um bom filme.

Ponto baixo – final anticlímax.

Ponto alto – o melhor anal (sex) que eu já vi na tela.

Ben Whishaw, inglês 14/10/1980🌞♎ 🌚

Adéle Exarchopoulos, francesa 22/11/1993 🌞♏ 🌚♓ ASC♍

Franz Rogowski, alemão 02/02/1986 🌞♒ 🌚♏

Erwan Kepoa Falé, francês, 🌞 ???

Paulo Al-Funs, cinéfilo, presente

Dancin’ Days – a saga continua (capítulo 30 aos 90)

A clássica novela se inicia com uma anti-heroína (Julia Matos/Sônia Braga) que estava presa e buscava em seus sonhos de liberdade reencontrar a filha que não chegou a “criar” e estava a 11 anos sem ver. Marisa (Glória Pires) é a típica (?) adolescente da zona sul carioca que foi acolhida pela tia biológica (mãe) Yolanda Pratini (Joana Fomm) e seu esposo (José Lewgoy) no momento mais difícil da vida da sua genitora que ficamos sabendo no decorrer do caminho pensou em colocá-la para adoção num orfanato. E que mesmo antes de ser presa nunca foi uma mãe presente. Temos um drama real aqui e nada incomum. Júlia almeja se encontrar com Marisa e falar “mamãe chegou”, como se fosse tudo tão simples. Obviamente é impedida pela irmã (que faz até o momento o papel materno da sobrinha). A torcida pelo re-encontro é grande? É. Júlia tem um certo magnetismo que atrai (em raríssimos casos, repele), a quase todos os outros personagens da novela que tem contato com ela. Teimosa que nem uma besta, só escuta a si própria. O egoísmo exala. Bom, pessoas de personalidade forte tem o poder de fazer com que outras pessoas de personalidades não tão decididas orbitem a sua volta. De uma forma muito justa e digna vai buscando resgatar sua vida, com trabalhos que surgem aqui e ali. É uma personalidade sofrida. Que se auto estigmatiza porque sabe que a sociedade vai fazer o mesmo com ela se descobrirem seu passado (na prisão). Pra tentar se aproximar da filha, com a ajuda de Verinha (Lídia Brondi) cria uma mentira, um nome fictício e consegue virar uma “amiga mais velha” da colegial (Marisa). Vale mencionar que Verinha é uma personagem esperta e logo sacou que o interesse de Júlia por saber sobre a vida de Marisa estava bem além do normal. Mas Vera é “do bem”. Júlia logo seria apresentado a face tenebrosa de Áurea (Yara Amaral).

17. A inauguração da tão esperada boate acontece. E é um acontecimento mesmo. Os personagens (quase todos) vão desfilar por lá. Há presença de famosos como Nana Caymmi dando canja. Eu curto pra ver o visual, é muito legal essa parte, o que era moda na época. Cabelos, roupas, a forma de dançar, as músicas. A trilha que sendo bem generoso nas palavras não passava de medíocre, agora ganha corpo com várias músicas de disco da época. Músicas que a gente conhece e tocam até hoje nas rádios. É um retrato da elite da época também. “17” é a boate dos ricos e descolados setentistas da sociedade carioca.

A novela dá um salto. Em algum momento vamos ser surpreendidos por Marisa e Beto (Lauro Corona), prestes a se casar. Não se explica. Somos simplesmente apresentados aos fatos. Verinha apostou na liberdade por igual entre as parcerias, e se enganou. Perdeu Beto. Acreditando que poderia continuar saindo com outro rapaz (um gato da academia de Ubirajara/Ary Fontoura), descobriu a preço de um coração quebrado (o próprio), que o machismo existe e é pra todos. Beto não aceita na boa ver sua princesa se divertindo sem ele e com outro na boate 17 e causa rebuliço. Vera é consolada por Carminha (Pepita Rodríguez) que dá um show explicando como o machismo é parte dominante na vida de todos nós (capítulo 40). Beto procura consolo em Marisa que tinha um crush nele. E quando damos por nós, os sonhos de Yolanda em ver a filha casada estão encaminhados. Júlia revoltada vai querer fazer com que Marisa desista e aí acontece o que prometia ser “a cena” da novela: a revelação de que é sua mãe. Mas a Júlia, a Júlia é muito equivocada no que acredita em como deve ser a sua comunicação em relação as outras pessoas. Ainda mas de um assunto tão delicado e revelador como: Eu sou sua mãe, porra! Marisa se casa e vai morar com Beto na casa dos pais dele. Mesmo tendo o jovem casal um apartamento todo decorado a espera deles. É curiosa a relação. São dois adolescentes (ela 16 e ele 19) aos quais não deveria ter sido permitido essa loucura de assumir um compromisso tão sério sendo tão jovens. Não são jovens só em idades. Mental e emocionalmente também. Rachei o bico quando os pais de ambos juntos perguntam onde eles querem passar a lua de mel, e a resposta é: Disneylândia. Não há paixão, apenas parece ser a relação de dois adolescentes que se dão muito bem, são amigos e curtem se pegar. Aqui e depois disso a uma mudança pouco sutil na personalidade do Beto: ele fica meio bitolado. Quase caí pro ridículo a tentativa de forçá-lo parecer um parvo. Algo que ele desempenha até bem, mas foge do conceito original da interpretação que estávamos sendo apresentados pelo ator. A personagem de Marisa se oculta um pouco na trama. E Verinha sem conseguir esquecer Beto paira sobre o casal, como uma perna de tripé que ainda não se estabeleceu. O casamento de Marisa abre as portas que leva sua mãe de volta a cadeia. (Ahhhh Áurea, como chama aquele lugar que está repleto de pessoas cheias de boas intenções e que você “ser do bem” devia estar?…). E aqui acontece outro fato curioso. Júlia, a protagonista sai novamente de cena. Pra mim é muito atípico isso. Uma anti (?) heroína que nessa primeira fase se mostrou sempre de forma que foge ao óbvio (ter participação em tudo e em todos os capítulos). A personagem Júlia fica realmente oculta em quanto a novela e seus demais personagens vão se desenrolando com suas histórias. Há outras mudanças. De forma oblíqua (não fica realmente constatado), Carminha parece estar conhecendo mais intimamente Franklin o personagem do Cláudio Corrêa e Castro, que ao mesmo tempo vê seu casamento já falido com Celina (Beatriz Segall), se desmantelar. Por isso Carminha se despede de seu partner Jofre (Milton Moraes) amigavelmente (é uma dupla muito gente fina). Por mais Carminhas e Jofres no mundo. Terminar uma relação de forma sensível mas não-emocionada (descontrolada emocionalmente), não sei se revela maturidade, mas com certeza amor-próprio, sim. Cacá, a mala que Antônio Fagundes nos apresenta tão bem se auto-descobre no divã. É um personagem curioso. Acredito que uma raridade na vida tão atuante do seu intérprete. Se tivesse oportunidade gostaria de saber dele como foi fazer esse cara complicado tão perdido em si mesmo e como ele o observa (se observa) através do tempo. É incrível a sabedoria que algumas pessoas carregam. Aqui me refiro ao autor Gilberto Braga. Cacá seria pela sua marcante característica de indecisão alguém que nasceu com o signo de ♎ forte no mapa. E aqui entra mais sabedoria (?) do autor (não acredito em coincidências). Cacá pela idade do seu personagem está vivendo o que em Astrologia chamamos de “o retorno de Saturno” um período crucial na vida de todas as pessoas que nos encontra pouco antes de entrarmos nos 30 (anos). E ele com sua crise típica dessa fase da vida vivência isso na novela. E a cereja do bolo pra melhorar é que o personagem ganha a vida pela elítica carreira de diplomata, profissão essa relacionada (astrologicamente) ao signo de ♎ (libra), que tem a habilidade de usar a comunicação pra se relacionar formando alianças (sem de fato se comprometer seja com A, B ou C). Firme e forte segue sua obstinação por Júlia, a mulher que nem o nome sabe, que em tudo a desconhece, e que conheceu durante uma tragédia (atropelou um doguinho e ainda por cima ia fugir sem prestar socorro, no que foi impedido pela nossa anti-heroína). Cacá se apaixonou no que parecia ser só tesão despertado por um beijo (lembrando que Júlia estava na seca a 11 anos. Ao menos na seca de homem). Incapaz de lhe esquecer encontra amparo na figura da sua amiga e confidente, a sempre lúcida Inês (Sura Berditchevsky), que tal como a prima Verinha, está sempre a testar os limites do machismo via relação com seu futuro ex (Eduardo Tornaghi). Cacá e Inês não são um casal apaixonante e nem apaixonados, mas, resolvem se assumir como parceiros para o projeto de um futuro relacionamento estável. Pra felicidade dos papais e mamães de ambos. Celina e Áurea querem ver seus rebentos encaminhados. E isso passa por uma aliança nos dedos. Pra piorar a tragédia bate a porta da casa de Inês. E de Cacá também. O que acaba unindo o que poderia ter outro destino. Num acidente de carro guiado por Franklin morrem Celina e Aníbal (Ivan Cândido, marido de Áurea). Ambos morreram porque não era lei no Brasil da época usar cinto de segurança nos carros. Ainda bem que as coisas nesse sentido evoluíram. A cena é didática. Tudo aquilo que não se deve fazer pra evitar uma tragédia. Celina nunca bebeu (além de champanhe), e se embriaga com whisky. Franklin nervoso e alterado no volante (pessoas com a cabeça quente não deveriam dirigir) dando carona a Áurea e Aníbal. Quando Franklin perde o controle do carro, Áurea sem cinto chega a ser jogada pra fora do carro. A cena do velório e posterior enterro é uma das mais verdadeiras que eu já vi. Foram pelo menos uns dois capítulos. E conseguiram captar toda a depressão que envolve esse tipo de situação. Eu não frequento nem velório e cemitérios. Conto nos dedos das mãos às vezes que fui, então me vejo observando atônito aquele desfilar bem real de um lugar (cemitério) que me causa tanta estranheza. É uma cena longa, longaaaaa. Você acompanha por minutos todo o cortejo. Lauro Corona e Cláudio Corrêa e Castro são a imagem da tristeza irreversível. Outra curiosidade é que a amante (uma das) do Aníbal foi no velório. Ninguém a conhecia. Mas sem dizer palavra, ficou lá, firme e forte em sua dor. Louvável. Quantos e quantas não aparecem pra se despedir numa hora dessas. Vivenciam sua dor, a dor da perda a distância. A partida do personagem também tira de cena o autor de duas pérolas que me divertiram muito. Pego em flagrante por sua mulher Áurea na saída do cinema (aqueles de rua), com uma outra amante e após ser colocado no freezer em casa pela esposa traída (no cinema ela fez cena), solta 02 frases que pra mim já entraram pros anais da cara de pau do sistema novelístico. “Eu tenho cara de marido que traí?” pergunta, a outra é “eu te perdôo pelo escândalo”. Rachei o bico. Celina antes de partir (coitada, viveu a vida toda sóbria, foi morrer embriagada), também deixa lições pra futura nora Inês “nunca pare de estudar”, “não abra mão da sua vida pelo seu marido”, “não fique como eu cuidando da família e depois que os filhos crescem, assistindo sozinha televisão na sala”. Celina antes de morrer fez amizade com Neide que era sua antiga funcionária, e que promete se vingar por Celina do mal que acredita que Franklin fez a amiga morta. Neide é um caso a parte. Ela é vilã. É interpretada por Regina Viana (atriz que eu não conhecia) com honras. É uma personagem onde a maldade é expressada especialmente no rosto e na sua postura. Difícil isso. Não é o que ela diz. Ou faz. Imagina uma atriz que usa os recursos que seu rosto dispõe pra mostrar o interior vilão da sua personagem. A forma dela olhar, as expressões. É incrível. Tem atores/atrizes que vestem o personagem como se ele tivesse sido feito de forma exata pra eles. Não podia deixar de esquecer. Alberico (Mário Lago) consegue mas uma vez se mostrar um empreendedor que tem por natureza fracassar nos seus empreendimentos. Dessa vez a vítima é sua escola de cooperagem, onde da aula Everaldo (Renato Pedrosa), uma figura que me diverte. Faz uma dupla com sua empregadora (Yolanda) gostosa de se ver. Ela por sua vez se separa do marido Horácio. Fiquei triste. Ele é muito gente fina. Não o amava mais. E o pior, revela pra ele que queria ter se separado a muito mais tempo, e só não o fez porque queria casar a filha antes. Foi dura com ele. E Júlia retorna da penitenciária com sede de vingança. E Ubirajara vai ser o seu instrumento para realizar suas vontades. Nosso voyeur se apaixonou profundamente e profundamente vai cego atrás da sua paixão, movida a ódio no momento. E é aqui que vemos que Júlia e Yolanda são faces da mesma moeda. Yolanda pede o divórcio depois que alcançou seu objetivo (casar a filha), e deixa ferido Horácio. O dinheiro é usado na manutenção do status quo via união Beto e Marisa. Júlia aceita a proposta de casamento (na real um contrato nu e cru) de Ubirajara pra conseguir atingir um novo status social via $ e conseguir competir com Yolanda. Ambas usam seus parceiros afetivos (ou que deveriam ser). Yolanda agora se relaciona com Hélio (Reginaldo Faria), o descolado e parece não ter idéia exata do preço a pagar pra bancar essa opção. Júlia agora acompanhada de duas fiéis amigas, Solange (Jaqueline Laurence) e a querida Mada (Neusa Borges) vai matando Cacá na unha, após chegar como estrela da sua viagem a Europa (o mundo capota né). E pela primeira vez nós a vemos como protagonista da novela das 8h. Sua entrada na agora recém inaugurada (ex 17), Dancin’ Days é um assombro. Sônia Braga abala geral. Já não falo da personagem, falo da atriz, porque quem da vida a Júlia e protagoniza aquelas cenas de dança na boate é a atriz Sônia Braga. Para e parou tudo. Seja solo, ou dançando com Paulette (Dzi Croquettes) ela destrói tudo.

Júlia (Sônia Braga) num visual ultra top com suas amigas Solange (Jacqueline Laurence e Neusa Borges) e Mada!

Paulo Al-Funs, autor